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Estudos Comprovam a Influência das Marcas e da Publicidade na Alimentação das Crianças

Por Camila Araújo e Camila Leão.

Sabe-se que o público infantil está cada vez mais exposto às mídias sociais, devido a inúmeros fatores, entre eles a maior carga horária de trabalho dos pais, a falta de segurança para brincar nas ruas, o maior acesso às tecnologias, etc. Tal exposição associada à enorme quantidade de publicidade direcionada a esse público, torna as crianças potenciais consumidores. Porém, o principal problema de se igualar as crianças aos adultos nessa lógica consumista, consiste na falta de capacidade de as crianças reconhecerem o caráter promocional e de julgamento entre uma propaganda e as características reais dos produtos, ao menos antes dos 6 anos de idade. A utilização de um mundo de diversão, aprendizado e entretenimento, associados a propagandas repletas de personagens infantis, cores e imagens, torna-se um atrativo praticamente irresistível para o público infantil.

Aliado a isso tem-se ainda a associação entre o consumo alimentar e entretenimento, estratégia frequentemente utilizada pela indústria conceituada como eaterteinment (comida + diversão), que influencia diretamente às crianças e consequentemente os pais. As indústrias de alimentos fazem muitos investimentos na divulgação de refrigerantes, doces, salgadinhos, cereais matinais, fast food, ou seja, alimentos os quais tendem a ser ricos em gorduras, açúcar e sal, bem como pobre em nutrientes.

Dadas as crescentes taxas globais de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis, muitos especialistas têm sugerido que a propaganda e a publicidade de tais alimentos contribuem para um ambiente “obesogênico” que torna as escolhas saudáveis mais difíceis, especialmente para crianças.

Muitos restaurantes fast food contam com alternativas, teoricamente, saudáveis no menu (por exemplo, maçãs como alternativa às batatas fritas), contudo, essas opções são pouco selecionadas para consumo – afinal, quem vai em um restaurante fast food, em geral, busca fast food!…

Um estudo realizado por Wansink et al. (2012) [2] investigou se 2 táticas de priming – o priming do modelo admirável e o priming dos alimentos saudáveis – poderiam influenciar crianças a realizarem escolhas mais saudáveis em restaurantes fast food.

O que é o priming?

O estudo define priming como “uma ativação não proposital de uma estrutura de conhecimento”. Ou seja, o priming seria a ativação de um processo cognitivo, em que informações do cérebro são ativadas. Assim, o indivíduo desencadeia um comportamento sem pensar conscientemente nele, de forma “automática”. É o que acontece quando dirigimos um carro, trancamos a porta de casa mas logo em seguida não lembramos se de fato fechamos, ou subimos escadas de um edifício, por exemplo.

O estudo foi realizado com crianças durante um acampamento de férias. O acampamento durou 4 semanas, sendo que todas as quartas feiras as crianças tinham a opção de escolher entre maçãs ou batatas fritas. Na condição controle as crianças eram questionadas sobre sua preferência, sem nenhuma interferência (priming). No priming do modelo admirável foram apresentadas 12 fotos, sendo 6 de personagens considerados “admirados” (como o Batman) e 6 dos “menos admirados” (como o Pinguim) pelas crianças, envolvendo um componente afetivo. Já no priming dos alimentos saudáveis foram utilizadas também 12 fotos, sendo 6 de alimentos saudáveis e 6 de não saudáveis, envolvendo um componente cognitivo.

Quando submetidas ao priming dos modelos admirados, 10 crianças de um total de 22 (45,5%) selecionaram as fatias de maçã ao invés da batata frita. No caso do componente cognitivo, apenas 4 optaram pela maçã e na condição controle, apenas 2 crianças. Assim, como resultado, o componente afetivo teve influência na escolha das crianças por alimentos mais saudáveis, ao contrário do componente cognitivo, que não influenciou suas escolhas.

O estudo sugere que talvez a estratégia de perguntar a uma criança “o que você acha que o Batman comeria?” seria uma boa opção para influenciar uma escolha mais saudável, principalmente em restaurantes fast food. Contudo vale lembrar que muitos restaurantes fast foods utilizam esses personagens do universo infantil para a divulgação de seus produtos não saudáveis, o que talvez possa confundir a criança quanto ao discernimento do que seria um exemplo a ser seguido.

Outro estudo que pesquisou sobre as influências na alimentação infantil, nesse caso, através da marca, foi realizado em 2007 por Robinson et al. O estudo teve como objetivo analisar se a presença de marcas nas embalagens influencia ou não a percepção das crianças a respeito dos alimentos. Foram apresentados alimentos iguais, porém alguns em embalagens do Mc Donald’s e outros em embalagens semelhantes, mas sem a marca estampada.

batata fritaParticiparam do experimento, crianças com idade entre 3 e 5 anos. Os resultados mostraram que a presença da marca nas embalagens influenciou as crianças, sendo que elas consideraram os alimentos ofertados nessas condições, como mais saborosos. Além disso também concluiu-se que aquelas crianças que assistiam mais televisão (mais submetidas ao marketing da empresa) e que consumiam lanches do Mc Donald’s com mais frequência foram as que mais preferiram os lanches com a marca. A pesquisa ainda ressaltou que as crianças que mais frequentam essa rede de fast food, podem ter preferido os alimentos com a marca, pois confiam, sabem da aprovação dos pais e conhecem a origem dos produtos.

Vale ressaltar que mesmo no caso de alimentos que não existiam no menu do Mc Donald’s, como por exemplo, as cenouras (na época ainda não estavam disponíveis no cardápio) foram escolhidas como mais saborosas quando apresentadas com a marca.

O estudo considerou que seria uma boa opção para essas marcas conhecidas ofertar alimentos saudáveis como forma de influenciar o consumo dos mesmos. Porém, no estudo anterior, vimos que quando isso foi feito as crianças continuaram optando pelos não saudáveis.

Relacionado a esse tema o PropagaNUT realizou um estudo em 2011 [1] que avaliou a influência da marca e da presença de personagens nas embalagens de alimentos voltados para o público infantil. O experimento foi realizado em duas escolas particulares do DF, sendo que as crianças tinham em média 5 anos. Foram apresentados alimentos (cereais matinais da marca Nestlé e suco de uva da marca Kapo) iguais, porém em embalagens diferentes. Foram oferecidas 24 pequenas amostras codificadas de produtos alimentícios, que compreenderam 12 pares de produtos: os seis primeiros pares corresponderam a cereais matinais, e os outros seis de suco artificial de fruta, sendo que foram constituídos de alimentos idênticos, porém expostos em embalagens distintas, previamente confeccionadas:

METODOLOGIA ANA DESENHADA

Cereal Matinal: exemplo de combinações utilizadas na metodologia para avaliar a influência da marca, do personagem e da ausência destes nas embalagens de alimentos industrializados.

Como resultado, o estudo mostrou que presença do personagem infantil na embalagem é um fator determinante na escolha dos alimentos, sendo que em alguns casos os participantes relataram diferenças específicas nas características, por exemplo, a crocância e a doçura dos alimentos que possuíam os personagens associados. Nesse caso a marca e outras variáveis sócio demográficas, como a idade, a presença da criança no momento das compras e a quantidade de TVs em casa (tempo de exposição a TV) não foram significativamente relevantes para influenciar a escolha. Isso pode ter ocorrido, devido ao tamanho da amostra ser pequeno e muito similar.

Destaca-se que no estudo de Robinson (2007) [3] foi comprovado que a marca é um fator que influencia a escolha entre os alimentos, o que não foi encontrado no estudo do PropagaNUT. Porém a diferença entre os dois pode ser explicada pelo fato de que a marca utilizado no primeiro foi o Mc Donald’s, amplamente conhecida e difundida, de fácil associação devido ao símbolo e as cores características, o que não acontece com as marcas utilizadas pelo estudo do PropagaNUT.

tumblr_inline_mpqlbvngCr1qz4rgpA partir dos resultados apresentados nos estudos citados, pôde-se perceber que a escolha e o estabelecimento da preferência alimentar infantil são influenciados pela presença da marca e, principalmente, pela presença de personagens infantis nas embalagens de produtos alimentícios. Esses resultados comprovam que o público infantil está suscetível a riscos com relação a sua formação e saúde. Isso leva ao questionamento da não regulamentação da publicidade dirigida a criança, em vista dos prejuízos por ela trazidos e maximizados, como é o caso do quadro da obesidade entre crianças e adolescentes brasileiros, que abrange proporções cada vez maiores. Assim, nota-se a visível necessidade do publico infantil ser protegido com relação as estratégias publicitárias utilizadas, e que sua regulamentação deve ser buscada incansavelmente, de modo que seja direcionada somente aqueles indivíduos capazes de discernir entre o caráter promocional de venda e as características reais do produto.

Fontes:

  1. Influência de Estratégias Persuasivas no Consumo Alimentar Infantil (Estudo do PropagaNUT, 2011)
  2. Wansink B., Shimizu M., Campas G. What would Batman eat?: priming children to make healthier fast food choices, Pediatric Obesity 7, 121–123, 2012.
  3. Robinson T. N.; Borzekowski D. L. G.; Matheson D. M.; Kraemer H. C. Effects of Fast Food Branding on Young Children’s Taste Preferences. Arch Pediatr Adolesc Med. 2007.
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Publicidade Infantil no Programa Cidadania – TV Senado

Em entrevista  ao Programa Cidadania, a Professora e Coordenadora do PropagaNUT Renata Monteiro fala sobre as consequências da publicidade na formação dos valores e do comportamento das crianças.

 

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Audiência Pública Debate Regulação da Publicidade de Alimentos Dirigida a Crianças

Por Camila Araújo e Camila Leão.

Aconteceu ontem, (29/08) às 10h, a Audiência Pública sobre regulação de publicidade de alimentos dirigida a crianças, em Brasília, promovida pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal.

A Audiência foi iniciada com a fala da senadora Ana Rita (PT-ES), presidente da Comissão, apresentando dados sobre a vulnerabilidade do público infantil à publicidade, como por exemplo, o fato de que até os 8 anos de idade a criança não consegue distinguir a publicidade da programação televisiva e até os 12 anos ela não compreende o caráter persuasivo dos comerciais. Além disso, destacou que as crianças brasileiras são recordistas no tempo que se passa na frente da TV: aproximadamente 5h.

O professor Fernando Paulino, da Faculdade de Comunicação da UnB, ressaltou que a Comunicação transcende a ideia de um direito individual, visto que está diretamente relacionada a um direito político e que é preciso compreendê-la com um direito social, ou seja, é preciso que a publicidade respeite os direitos do outro. Citou ainda, a necessidade de acompanhar os seus impactos na sociedade.

Veet Vivarta, secretário-executivo da ANDI, discutiu bastante sobre a relação entre liberdade de expressão e censura. De acordo com Veet, reuniões como essa, não estão debatendo uma invenção que quer ferir a liberdade de expressão e, sim, estão seguindo uma tendência mundial em busca de proteger os direitos das crianças. Para ele, a regulação se diferencia da censura, visto que a primeira é um mecanismo democrático.

Em sua apresentação, ressaltou que na publicidade não existe um artista criando uma peça publicitária voltada apenas para as crianças; o que existe é uma equipe formada por diversos profissionais, como psicólogos e cientistas, tentando criar algo capaz de romper a mínima barreira de proteção das crianças.

Apresentação de Veet Vivarta.

A professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do PropagaNUT, Renata Monteiro, levantou a questão de que não estamos formando apenas consumidores, mas principalmente cidadãos. A publicidade cria um universo onde a criança é levada a acreditar que precisa ter para ser. Citou que 96% dos alimentos anunciados não são saudáveis, uma vez que contêm excesso de sal, açúcar ou gorduras prejudiciais ao organismo. Além disso, o que impressiona não é apenas o tipo de alimentos publicizados, mas como estes estão associados em seu contexto (a criança é levada a querer o produto não porque gosta do sabor, mas porque quer fazer parte daquele universo fantasioso). Sobre o fato de que as crianças passam muito tempo na frente da televisão, Renata afirmou que não podemos culpabilizar somente os pais; a responsabilidade não é só deles, mas também de toda a sociedade e principalmente do Estado. Ela informou que uma em cada três crianças brasileiras está com excesso de peso, índice que poderia ser melhorado caso fosse banida da TV esse tipo de publicidade.

Durante a Audiência, também foi realizado o lançamento do livro Publicidade de Alimentos e Crianças: Regulação no Brasil e no Mundo, o qual foi editado pelo Instituto Alana em parceria com a Andi e com o núcleo de pesquisa International Development Society, da Universidade de Harvard. A diretora de Defesa e Futuro do Instituto Alana, Isabella Henriques, iniciou sua fala destacando a ineficácia da auto regulação e sobre os altos índices de DCNTs no país, o que motivou a pesquisa sobre a regulação da publicidade em diversos países e que culminou na publicação do livro.

A coordenadora geral de Consultoria Técnica e Processos Administrativos da Senacom, Tamara Gonçalves, apresentou alguns aspectos jurídicos que já existem para “regular” a publicidade, como o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Afirmou também que a publicidade deve ser verdadeira, ou seja, sem omissões ou mentiras, e que o consumidor deve ter o direito de saber que está diante de uma peça publicitária.

Encerrando a Audiência  a senadora Ana Rita comunicou que o tema voltará a ser debatido na comissão, desta vez com representantes das associações de anunciantes, das indústrias de refrigerantes e de alimentos, bem como das agências de propagandas.

Ao final , a coordenadora do PropagaNUT foi convidada a dar entrevistas para a TV Senado e para a EBC (Confira aqui).

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Entrevista da Profª. Drª. Renata Monteiro para a TV Senado.

Com informações do Portal de Notícias do Senado e da Empresa Brasil de Comunicação – EBC .

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Nova Lei acaba com doces, salgadinhos, balas e frituras nas cantinas escolares do DF

Por Camila Araújo e Camila Leão.

Na última segunda-feira (19/08), foi sancionada pelo governador do DF, Agnelo Queiroz, a ei nº 5.146, que proíbe refrigerante, biscoito recheado, salgadinhos, balas, chocolate, entre outros, no cardápio das escolas de educação infantil e de ensino fundamental e médio das redes pública e privada do Distrito Federal. Na rede pública, a Secretaria de Educação fiscalizará a aplicação da norma nas 250 unidades com cantinas privadas. Confira a legislação publicada no Diário Oficial:

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É uma vitória que essa lei tenha sido aprovada no Distrito Federal, e que sirva de exemplo para o resto do país!

A alimentação saudável nas escolas é importante para estimular as crianças a conhecer novos alimentos, criar hábitos saudáveis e levá-los para dentro de casa. É importante também que haja uma sintonia entre os alimentos disponíveis na escola e em casa, para que o desenvolvimento de hábitos saudáveis seja incorporado na rotina da criança.

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“Energia Positiva” e Ineficácia do Conar #EraSóOQueFaltava

Por Camila Araújo e Mariane Bandeira.

Mesmo com a proibição da veiculação do comercial da Coca-Cola sobre as “calorias de energia positiva” no Reino Unido e no México, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) se posicionou favorável à mesma versão da propaganda no Brasil.

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No Reino Unido

O órgão de regulamentação da propaganda do Reino Unido, a Advertising Standards Authority (ASA), proibiu a veiculação do comercial da Coca-Cola que mostra alguns tipos de atitudes divertidas que ajudam a queimar até 139 cal, a quantidade de calorias presentes numa lata de Coca-Cola. De acordo com as autoridades, há uma confusão em relação à quais das atividades demonstradas no comercial é necessária ser feita para queimar o número de calorias.

Fonte: Meio e Mensagem.

Coca149Calorías2No México

A campanha da Coca-Cola “149 calorias” que foi veiculada em diversas mídias do país – comerciais de televisão, rádio e internet – foi retirada e multada por Cofepris (Comissão Federal para a Proteção contra Riscos à Saúde) e Profeco (Procuradoria Federal do Consumidor) pelas alegações enganosas, que representam um risco à saúde.

Fonte: El Poder Del Consumidor.

CocaColaEnergiaPositiva_300x200No Brasil 

A decisão do Conar definida na reunião da quinta-feira 18 contradiz uma anterior, de primeira instância, que proibia a associação entre a marca e a geração de “energia positiva”. A marca recorreu e, agora, obteve decisão favorável do Conar. No entender do conselho de ética, o brasileiro médio tem noção de que o consumo de que qualquer produto alimentício em excesso pode ser danoso. Para o relator, está claro para a população que “o que pode transformar o remédio em veneno é justamente a dose”. Além disso, ele lembra que o próprio comercial sugere a ingestão responsável da bebida e oferece a opção da Coca-Cola Zero para quem não quiser ganhar calorias. Com esta interpretação, o caso foi arquivado por maioria de votos e a campanha pode seguir em veiculação.

Fonte: Meio e Mensagem.

De fato, a autorregulamentação publicitária no país está pra lá de ineficaz e, por que não dizer, contraditória. Uma propaganda que mostra pessoas felizes associadas à ideia de energia positiva, mas que não citam o quanto essas calorias são VAZIAS, não tem nada de bom!

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A indústria faz muito bem o papel dela que é vender. É óbvio que o interesse por trás disso é o lucro. A Coca-Cola sabe que a epidemia de obesidade é global e real. E sabe TAMBÉM que é cientificamente comprovado que as bebidas açucaradas têm uma parcela significativa de culpa. Então, o que eles fazem? Lavam suas mãos, definitivamente, é essa intenção real desse tipo de propaganda. Elas querem jogar a culpa para o consumidor, e isso é absurdo! Uma empresa que investe BILHÕES DE DÓLARES em campanhas publicitárias e conta com uma equipe de marketing altamente preparada não pode usar um argumento de que “a culpa é do consumidor”! E muito menos dizer que eles estão oferecendo uma segunda opção  (no caso, pode até não ter calorias, mas tem sódio, conservantes e adoçantes). Associar um produto que não traz NENHUM benefício para saúde com a frase “123 Kcal de energia positiva” é propaganda enganosa e abusiva. Não dá para engolir isso!

#EraSóOQueFaltava

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A influência da regulamentação sobre o comportamento alimentar

Por Marion Nestle* | Tradução de Silvia Düssel Schiros**

Marion Nestle

Embora a regulamentação imposta à indústria alimentícia seja fácil de burlar, os governos municipais têm motivos para crer na eficácia de tais medidas

Como expliquei recentemente durante o debate sobre a proposta de criação de um imposto sobre refrigerantes, a regulamentação permite que as pessoas tenham uma alimentação mais saudável sem que precisem nem mesmo pensar no assunto. A regulamentação faz com que a opção padrão seja a opção saudável. Em qualquer situação, tendemos a escolher a opção padrão.

Dizer que cigarros causam câncer dificilmente faz com que alguém pare de fumar. Mas as leis, sim. No caso dos cigarros, o aumento dos impostos, a proibição da publicidade, a definição de uma idade mínima para compra e a restrição do ato de fumar em aviões, locais de trabalho, bares e restaurantes fez com que ficasse mais fácil para os fumantes largarem o vício.

Economistas afirmam que o custo da obesidade e suas consequências para a sociedade é de US$ 190 bilhões por ano, considerando-se os gastos na área de saúde e os prejuízos resultantes da queda de produtividade. Assim, as autoridades da área de saúde se esforçam cada vez mais para encontrar estratégias igualmente eficazes para desencorajar o consumo de bebidas açucaradas e fast food.

As pesquisas corroboram as abordagens regulatórias. Sabemos o que faz com que comamos demais: o investimento de bilhões de dólares em mensagens publicitárias, o fato de os produtos alimentícios serem vendidos em qualquer lugar – postos de gasolina, máquinas de venda automática, bibliotecas, lojas de roupas, livrarias, papelarias, lojas de cosméticos e farmácias – e a oferta de porções gigantescas a preços irrisórios.

produtos-para-criancaAs pesquisas também indicam quais são as táticas bem-sucedidas para vender produtos alimentícios para crianças: personagens de desenho animado, celebridades, comerciais durante seus programas favoritos e brinquedos distribuídos com Lanches Felizes. Esse tipo de publicidade leva as crianças a quererem os produtos, a perturbarem seus pais para comprá-los e a fazerem birra quando os pais dizem não. A publicidade faz com que as crianças acreditem que precisam comer os produtos anunciados, enfraquecendo a autoridade dos pais.

As autoridades da área de saúde pública buscam formas de intervir no âmbito de seus mandatos legais e da sua autoridade. No entanto, por mais que queiram, não há muito que possam fazer no que diz respeito à publicidade infantil. As empresas das indústrias de alimentos e de bebidas alegam ter direito à liberdade de expressão para proteger o “direito” de anunciar produtos alimentícios sem valor nutricional para as crianças. Nos EUA,o lobby dessas indústrias é tão poderoso que conseguiram derrubar o projeto do órgão americano de defesa do consumidor – o Federal Trade Commission – que propunha a definição de regras de adoção voluntária e caráter não vinculante referentes à publicidade de produtos alimentícios para crianças.

Além das restrições à publicidade, as autoridades tentam encontrar outras opções. Aprovam leis que exigem a listagem dos ingredientes de fast food nos cardápios, proíbem o uso de gorduras trans, proíbem a venda de brinquedos em lanches vendidos para crianças e restringem as vendas de produtos alimentícios sem valor nutritivo nas escolas. Propõem a cobrança de impostos mais altos para refrigerantes e limites máximos de tamanho de recipientes para a venda de refrigerantes.

Atualmente, várias pesquisas comprovam o valor dessas práticas de regulamentação.

Estudos acerca dos efeitos da listagem dos ingredientes nos cardápios indicam que nem todos leem as informações, mas aqueles que o fazem tendem a reduzir a compra de produtos calóricos. Essa iniciativa definitivamente mudou meu comportamento. Será que eu quero mesmo comprar um bolinho de 600 calorias para o café da manhã? Hoje não, obrigada.

Em 2008, o uso de óleos hidrogenados com gorduras trans foi proibido em Nova Iorque. Como consequência, os moradores da cidade, inclusive os de baixa renda, passaram a ter acesso a alimentos com menos gorduras trans. Ainda não foi possível comprovar se essa medida foi responsável pela redução da incidência de doenças cardíacas em Nova Iorque, mas banir o uso de gorduras trans certamente não causou nenhum mal à população.

lanches e brinquedos

Pesquisadores canadenses afirmam que a chance das crianças escolherem refeições mais saudáveis triplica quando essas refeições vêm com brinquedos e as outras refeições, sem. Na hora de escolher o que vão comer, as crianças quase sempre escolhem a refeição que vem com o brinquedo.

Um estudo recente publicado na revista Pediatrics comparou os índices de obesidade infantil de estados que apresentavam restrições quanto ao tipo de alimento vendido nas escolas com aqueles de estados que não apresentavam tais restrições. Adivinhem o que o estudo concluiu? As crianças que moram em estados onde a venda de produtos alimentícios sem valor nutricional é proibida sofrem menos com problemas de sobrepeso.

hortas escolaresA revista Circulation publicou um estudo da American Heart Association sobre “abordagens populacionais baseadas em evidências” relativas à adoção de uma dieta mais saudável. O estudo conclui que medidas como campanhas intensivas nos meios de comunicação, programas educativos realizados em lojas, concessão de subsídios para frutas, verduras e legumes, impostos, hortas escolares, programas de bem-estar no local de trabalho e restrições quanto à publicidade infantil têm grande valor.

Os benefícios das abordagens estudadas podem parecer pequenos, mas juntos indicam que há esperança de reverter as tendências atuais.

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Pesquisadores também sugerem outras abordagens, ainda inéditas. O Yale Rudd Center, centro de estudos sobre políticas de alimentação e obesidade da Universidade de Yale, demonstrou recentemente que o uso de códigos de cores (as cores dos sinais de trânsito) estimula a escolha de alimentos mais saudáveis.

E pesquisadores da Rand Corp. propõem iniciativas semelhantes àquelas que deram certo no caso das bebidas alcoólicas: limitar a densidade de pontos de venda de fast food, proibir a venda desses produtos em locais que não sejam destinados à venda de alimentos, exigir que supermercados coloquem produtos alimentícios sem valor nutricional e refrigerantes em locais mais escondidos, proibir a venda através do sistema drive-through, limitar o tamanho das porções e rotular tais produtos com avisos.

Vale a pena tentar essas abordagens. Se as pesquisas continuarem demonstrando seu valor, as autoridades locais terão ainda mais motivos para implantá-las. Se os resultados forem bastante convincentes, talvez o governo federal seja obrigado a agir.

Enquanto isso, são as cidades que lideram a mudança, e Richmond é uma delas. São iniciativas que devem ser experimentadas, testadas e apoiadas.

*Marion Nestle é professora do Departamento de Nutrição, Estudos de Alimentos e Saúde Pública da Universidade de Nova Iorque. É autora de Food Politics, Safe Food, What to Eat e Pet Food Politics.

**Silvia Düssel Schiros é mãe de duas, tradutora, preocupada com o futuro das crias e do mundo. É co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo e colabora também com o coletivo Faça a sua parte.

Texto original aqui.

Tradução:  Movimento Infância Livre de Consumismo.

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Tony e Ronald em busca de novos empregos

Por Camila Araújo.

A Consumers International (CI) – juntamente com International Obesity Task Force (Força Tarefa Internacional da Obesidade), UK Health Forum (Fórum de Saúde do Reino Unido), World Cancer Research Fund International (Fundo Internacional de Pesquisa ao Câncer), World Action on Salt and Health (Ação Mundial sobre Sal e Saúde) e World Public Health Nutrition Association (Associação Mundial de Nutrição em Saúde Pública) – apresentou uma declaração para a 66ª Assembléia Mundial da Saúde da OMS (Organização Mundial de Saúde), manifestando seu apoio ao Plano de Ação Global da OMS para prevenção e controle das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT).

A declaração destaca a importância do Plano de Ação Global da OMS sobre DCNT e convida os Estados-membros a apoiarem a inclusão do Plano através de um conjunto de ações políticas e regulatórias para ajudar o consumidor a ter uma alimentação mais saudável. Dentre alguns pontos da declaração estão: implementação do conjunto de recomendações sobre marketing para crianças; desenvolvimento de rótulos de alimentos claros e legíveis para os consumidores; adoção de instrumentos econômicos e fiscais para incentivar escolhas alimentares e ambientes mais saudáveis; medidas para reduzir o nível de sal, gorduras saturadas e açúcar incluídos em alimentos e bebidas processados e medidas para aumentar o consumo de frutas e hortaliças.

Outras ações que estão ocorrendo na Assembléia Mundial de Saúde da OMS

Uma campanha proposta pela Consumers International e por El Poder del Consumidor está dando o que falar. O tom cômico e irônico dessa campanha já foi discutido no blog, nesse post, sobre o “Cártel de la Chatarra” ou o “monopólio dos junk foods“.

Em protesto que exige a proibição da publicidade de alimentos não-saudáveis dirigida às crianças, membros da CI apareceram vestidos de Ronald McDonald e de Tony, o Tigre.  Os detalhes estão logo abaixo:

Ronald McDonald e Tony, o Tigre, buscam trabalho!

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Após anos de venda de hambúrgueres, batatas fritas e cereais açucarados para crianças de todo o mundo, Ronald McDonald e Tony, o Tigre, se encontram em Genebra, na Assembléia Mundial de Saúde, para se desculpar por seu comportamento passado e encontrar um novo trabalho.

Ronald McDonald e Tony estão distribuindo seus currículos para delegados da Assembléia Mundial de Saúde da OMS, além de experimentar novos trabalhos, como parte de uma campanha da CI e seus membros a favor da proibição do marketing de alimentos não-saudáveis dirigido às crianças.

O público é convidado a sugerir novos empregos para Tony e Ronald via Twitter usando #jobs4RonandTony.

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Novos empregos para Ronald e Tony!
Clique na imagem para ampliar.

Em 2010, mais de 42 milhões de crianças menores de cinco anos de idade estavam com sobrepeso ou obesidade e este número cresce a cada ano. É amplamente reconhecido que o marketing de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e ricos em energia dirigidos às crianças afeta as suas preferências alimentares, ajudando a estabelecer padrões de consumo que favorecem a pandemia de obesidade.

A Assembléia Mundial de Saúde se reúne em Genebra, na Suíça, de 20 a 28 de maio, para discutir sobre um novo Plano de Ação Mundial para controle e prevenção das DCNT, cujas ações incluem a aplicação das recomendações para limitar o marketing de alimentos dirigidos ao público infantil.

Fontes: Consumers International, El Poder del ConsumidorIdec.

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