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Portas Abertas do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA): Discriminação contra os estudantes obesos e os muito magros nas escolas brasileiras

Por Ada Bento e Camila Leão

Nesta terça feira, 11/3 o PropagaNUT participou de um evento organizado pelo OBHA, sobre Discriminação contra os estudantes obesos e os muito magros nas escolas brasileiras. A pesquisa foi desenvolvida pelo economista Luis Claudio Kubota, vinculado ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

A base de dados utilizada foi a da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde (MS).A amostra foi composta por alunos do nono ano, com uma faixa etária média entre 14 e 15 anos.

A principal variável utilizada foi a classificação como “muito magros”, “magros”, “normais”, “gordos” e “muito gordos”, sendo que essa foi uma variável autoclassificatória.

O gráfico abaixo apresenta os percentuais de ocorrência de comportamentos de risco, bullying, agressões e ferimentos, atividade física e relacionamento com os pais, entre todos os alunos de escolas píblicas que compuseram a amostra.

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Clique na imagem para ampliar.

Obs: Na versão completa do trabalho, está disponível a análise separada por sexo e por tipos de escolas (pública ou privada). Vale ressaltar, que não houve diferença significativa entre os dois tipos de escolas.

O gráfico mostra claramente, que tanto para os alunos obesos, quanto para os muito magros, há alguma diferença com relação aos indicadores analisados. Isso indica que esses alunos estão sofrendo discriminação dentro do ambiente escolar e algumas vezes até mesmo dentro de casa. Foi muito destacado tanto pelo pesquisador, quanto pelos ouvintes da palestra, que é importante que as políticas públicas foquem na obesidade e nas suas causas, e não no obeso. Quando uma ação sobre esse tema não é bem estruturada, a mesma pode ter efeito contrário, e estimular ainda mais o preconceito, como é o exemplo da imagem a seguir:

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Na pesquisa também foi avaliada a diferença entre consumo de alimentos saudáveis e não saudáveis, de forma que os alunos deveiram marcar quantos dias na da semana consumiam cada tipo de alimento. A tabela abaixo mostra os resultados encontrados.

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Clique na imagem para ampliar.

Durante a discussão foi ressaltado principalmente o fato de que os alunos que se consideraram “muito gordos” disseram consumir mais alimentos saudáveis e menos não saudáveis do que os “normais”.

As possíveis justificativas para esses resultados podem ser o fato de os “muito gordos” serem mais conscientes sobre o valor da alimentação, de adolescentes consumirem mais alimentos devido ao maior gasto energético durante essa fase da vida, ou ainda estarem mentindo; em busca de aprovação. Vale ressaltar ainda que esses dados são em termos de número de dias e não de quantidade consumida, ou seja, o adolescente pode referir consumir o alimento só um dia durante a semana,  porém consumi-lo em grande quantidade nesse único dia – ou vice versa.

Resultados como este mostram que ainda há muita discriminação com relação ao estado nutricional e que muitas vezes nem os pais e nem a escola sabem como lidar com isso, enfatizando a necessidade da criação de políticas públicas bem elaboradas sobre esse tema. A pesquisa na íntegra está disponível no link destacado acima.

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Estudo mostra redução de 43% na obesidade infantil nos Estados Unidos

Por Camila Araújo e Camila Leão (com informações*).

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Estudo recém publicado, divulgou dados promissores: diminuição de 43% na taxa de obesidade entre crianças de 2 a 5 anos durante a última década.

Foi o primeiro declínio abrangente na epidemia de um problema que costuma prenunciar uma vida de luta contra o peso e o risco de câncer, cardiopatias, derrame e outras doenças. A queda foi constatada por uma grande pesquisa federal considerada por especialistas o padrão-ouro para avaliar o peso médio dos americanos. A redução da obesidade nessa faixa etária foi vista como uma boa surpresa por especialistas, pois pesquisas mostram que crianças com sobrepeso ou obesidade entre os 3 e 5 anos tendem a permanecer assim também na vida adulta. Cerca de 8,4% das crianças entre 2 e 5 anos estavam obesas em 2012, contra 13,9% em 2004.

Pesquisadores apontam que o aumento do número de crianças que são amamentadas e a diminuição do consumo de bebidas ricas em açúcar e de calorias totais, podem ser possíveis causas para essa redução. Outra causa, sugerida pela primeira dama Michele Obama, seria o sucesso de sua campanha “Let’s move!”

Entretanto, para algumas pessoas estes dados não são suficientes para “tanta comemoração”. O repórter americano Kevin Drum questionou como a obesidade decaiu em 43% entre crianças de 2 a 5 anos, e se manteve estável entre indivíduos de 2 a 19 anos? Além dele, John Jakicic, diretor da University of Pittsburgh’s Physical Activity and Weight Management Research Center, disse que o único jeito de garantir que essa queda foi realmente significativa, é realizando um estudo mais longo. Já a repórter Alice G. Walton, ressaltou que a redução de 43% dos índices de obesidade infantil, na verdade, ocultam em grande parte a verdadeira tendência na última década: as taxas de obesidade entre jovens e adultos têm se mantido constante.

De qualquer forma, dados como este servem de estímulo para continuarmos na luta contra a obesidade. Além disso, a importância da educação e conscientização da população para adoção de um estilo de vida saudável é inegável. Se os dados refletem uma real queda das taxas de obesidade infantil, vamos aguardar alguns anos para conferir.

* Fontes:

  1. Pela primeira vez, cai obesidade infantil nos EUA; informação e prevenção funcionam contra o mal do século.
  2. Is Childhood Obesity Really on Its Way Down?
  3. Estudo publicado no The Journal of the American Medical Association. 

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A comercialização da infância

Por Camila Araújo e Camila Leão (Fonte: RedeNutri).

consuming-kids-imageDocumentário mostra a relação das estratégias de marketing para crianças e o precoce consumismo desenfreado no público infantil.

O documentário CONSUMING KIDS – The commercialization of childhood (Consumo de Crianças – A comercialização da infância), produzido nos Estados Unidos em 2008 com direção de Adriana Barbaroe Jeremy Earp, mostra a influência negativa do marketing na infância.

O documentário, de aproximadamente 1 hora, mostra em detalhes a relação das estratégias de marketing para crianças e o precoce consumismo desenfreado no público infantil.

Já está comprovado que a publicidade infantil influencia negativamente o padrão de consumo de crianças e adolescentes, e o que o documentário retrata é uma realidade assustadora do assédio das empresas de marketing às crianças.

O estímulo ao consumismo, demonstrado pelo documentário, cria uma geração de pessoas com valores deturpados e com problemas graves de saúde, tanto físicos quanto mentais.

Confira abaixo:

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Com a volta às aulas… O que colocar na lancheira?

Por Camila Araújo. 

85152_ext_arquivoCom a volta às aulas, vêm também as dúvidas e preocupações para montar a lancheira da criançada. Mas com a rotina corrida e a falta de tempo de muitos pais, muitas vezes o que se encontra nas lancheiras são salgadinhos industrializados, bolinhos artificiais, biscoitos recheados, sucos de caixinha, entre diversos outros exemplos nada saudáveis, mas com certeza práticos.

Contudo, será que essa praticidade compensa? Quando observamos o teor nutricional desses alimentos (ou melhor, produtos alimentícios) e a saúde das crianças, aparentemente não… O documentário Muito Além do Peso retratou isso muito bem, mostrando o crescimento da obesidade infantil no país e no mundo.

Mas para tirar a dúvida, o PropagaNUT resolveu mostrar o problema de alguns dos alimentos mais comuns encontrados nas lancheiras e dar algumas dicas de como fazer uma lancheira mais saudável.

Lanche 1

ana-soja

Para visualizar as análises completas, clique nos links ao lado.

Bolinho Ana Maria – cheio de açúcar e gordura, além de muitos aditivos alimentares.

Suco de uva Ades – por ser a base de soja, muita gente pode achar que é melhor. Mas ele também possui muito açúcar e aditivos, além de adoçante, que não é tão indicado para ser consumido por crianças.

Opção mais saudável: bolo caseiro sem recheio e suco de fruta (dentro de uma garrafinha térmica).

Opção mais prática, viável e ainda saudável: bolo caseiro e suco industrializado*.

Lanche 2

tod-pas

Para visualizar as análises completas, clique nos links ao lado.

Toddynho – rico em açúcar, gorduras e aditivos alimentares.

Biscoito recheado Passatempo – alto teor de açúcar, aditivos alimentares, gorduras,  além de  utilizar fontes de gorduras que, possivelmente, são trans.  Também possui corante caramelo, que tem sido apontado como uma substância possivelmente cancerígena (mais especificamente, o caramelo IV, que é muito utilizado em refrigerantes – leia mais aqui).

Opção mais saudável: mix de aleaginosas e frutas secas e um iogurte* natural batido com fruta (dentro de uma garrafinha térmica).

Opção mais prática, viável e ainda saudável: mix de aleaginosas e frutas secas e um iogurte* saborizado (morango, ameixa, mel, etc) ou biscoito caseiro/biscoito simples* (sem recheio) e uma fruta.

*Acreditamos ser melhor não indicar nenhuma marca específica. Mas procure produtos que tenham reduzido teor de açúcar e gorduras, que sejam ricos em vitaminas e minerais (naturalmente presentes, se possível) e que utilizem poucos aditivos alimentares. Leia e compare os rótulos para fazer melhores escolhas.

Fonte das análises: Fechando Zíper.

Muitas vezes não é possível fazer o ideal, ou seja, o mais saudável – por isso existem tantas opções de industrializados que auxiliam nos momentos de “perrengue”. O grande problema é quando esses alimentos que deveriam ser exceção viram regra.

É importante que os pais dediquem um pouquinho a mais de seu tempo para a alimentação (e, consequentemente, para a saúde) de seus filhos e, para isso, planejamento é fundamental.  Entre algumas dicas do que os pais podem fazer para não perder tanto tempo na montagem do lanche estão:

  • Deixar as frutas já higienizadas e cortadas (para as que precisarem disso) na geladeira, nos potinhos que a criança vai levar na lancheira.
  • Preparar bolos e biscoitos no fim de semana, para ir oferecendo na lancheira da criança ao longo da semana.
  • Separar o bolo, o mix de castanhas e frutas ou o biscoito, por exemplo, na noite anterior à aula, nas porções que a criança vai consumir.
  • No caso de sanduíches, preparar a noite e deixar na geladeira, para que seja necessário apenas colocá-lo na lancheira.

Outras sugestões interessantes de lanches podem ser encontradas na página da nutricionista infantil Karine Durães,  no blog Comer para Crescer, bem como na página e no facebook de As delícias do Dudu.

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Bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro”, será que é uma boa opção de lanche para seu filho?!

Por Camila Araújo e Camila Leão.

360x360_484674_1Tendo em vista o contexto atual de aumento nas prevalências de excesso de peso entre a população, em especial entre crianças e adolescentes, causada principalmente pelo consumo de alimentos ricos em gorduras trans e saturadas, sódio e açúcar, foi realizada a análise das informações nutricionais do bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro”.

Primeiro, vamos mostrar um pouco desse contexto:

A fase da vida que compreende a infância (5 a 9 anos) e a adolescência (10 a 19 anos) é um período de modificações fisiológicas, psicológicas e sociais (OPAS, 1998). Fatores hereditários, ambientais, psicológicos e nutricionais influenciam as diversas modificações desse período. Por ser uma fase marcada por transformações, acaba sendo também o período em que são construídos e consolidados os hábitos alimentares e o estilo de vida. Assim, fatores como auto-imagem, valores, necessidades fisiológicas, preferências pessoais, experiências e conhecimentos, busca por autonomia, questionamento dos padrões familiares, interação grupal e a mídia, especialmente a televisão, influenciam nas escolhas de crianças e adolescentes (Boccaletto & Mendes, 2009).

Pesquisas mostram que a publicidade tem como público-alvo as crianças, e não o decisor da compra, pois a linguagem e as imagens têm um apelo infantil, sendo as mensagens mais afetivas, apelando ao lúdico, o mundo sonhado pela criança, o super-herói, as brincadeiras com a turma, entre outros. Além disso, outra característica desse tipo de publicidade é a demora para que o produto em si seja apresentado, ressaltando que a conquista do público não está relacionada com o produto, mas sim, com o imaginário envolvido em seu consumo. Vale destacar ainda o fato de que, normalmente, nessas peças publicitárias, os atores infantis são sempre eutróficos (Pain & Reinert, 2013).

Estas características podem ser observadas na peça publicitária do bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro”, que apresenta um mundo ideal feito para as crianças, no qual tudo que ela deseja se realiza – por exemplo, bagunça no banho, muitas histórias antes de dormir, o cafuné da mãe, janelas que não quebram e, evidentemente, o produto anunciado.

Além disso, nenhuma informação nutricional, nem orientação para consumo relativo à saúde (por exemplo, que o consumo excessivo pode causar mal à saúde ou qual o limite diário a ser consumido) foi encontrada na peça publicitária em questão, assim como descrito no estudo de Pain & Reinert (2013). Também não foi encontrada nenhuma informação direcionada aos pais e estes, quando aparecem, participam apenas de maneira secundária no comercial (como a mãe fazendo cafuné ou a professora ministrando a aula).

Campanha da Bauducco – Reino das crianças

Descrição da campanha seguindo a produtora: Este filme faz parte da campanha criada para o lançamento dos bolinhos Roll e Duo, da Bauducco. Estreou no dia 14/9/11. O filme “Reino das Crianças”, começa a ser veiculado nos canais a cabo e, em seguida, na TV aberta, leva os espectadores ao mundo ideal das crianças, em que os banhos são brincadeiras que se estendem pelo chão do banheiro, os pais contam centenas de histórias na hora de dormir, todos têm direito a cafuné da mãe o dia todo e, na escola, a um lanchinho gostoso com os novos bolinhos da Bauducco.

Segundo Monteiro et al. (2008), 72% das propagandas de alimentos infantis no Brasil são de alimentos não saudáveis, e o impacto desses alimentos para os consumidores é facilmente sentido, visto que os casos de obesidade infantil têm aumentado no país e no mundo (Monteiro et al., 2008; Kelly et al., 2010).

De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2008 e 2009, as prevalências de obesidade na população adulta são de 12,5% entre os homens e 16,9% entre as mulheres. Já entre as crianças, o excesso de peso abrange cerca de 33,5% na faixa etária de 5 a 9 anos de idade – quase o triplo do valor encontrado na Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição de 1989 (IBGE, 2010). Em 20 anos, as prevalências de casos de obesidade foram multiplicadas por quatro entre os meninos (4,1% para 16,6%) e por praticamente cinco entre as meninas (2,4% para 11,8%) (IBGE, 2010).

Agora vamos às informações sobre o bolinho:

INFORMAÇÃO NUTRICIONAL

Porção de 38 g (1 unidade) ***

Quantidade por porção

% VD *
Valor energético

154 kcal = 647 kJ

8%

Carboidratos

22g

7%

Proteínas

2g

3%

Gorduras totais

6,5g

12%

Gorduras saturadas

4,6g

21%

Gorduras trans

0g

**

Gorduras monoinsaturadas

1,2g

**

Gorduras poli-insaturadas

0,4g

**

Colesterol

23mg

8%

Fibra alimentar

0,8g

3%

Sódio

57mg

2%

Vitamina B1 (Tiamina)

0,07mg

6%

Vitamina B2 (Riboflavina)

0,08mg

6%

Niacina

0,92mg

6%

Vitamina B6

0,08mg

6%

Cálcio

57mg

6%

* % Valores Diários de referência com base em uma dieta de 2000 kcal ou 8400 kJ.** Valor Diário não estabelecido*** Porção de referência de 60g.

Ingredientes

Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, ovo integral, açúcar, cobertura sabor chocolate (20%) [açúcar, leite desnatado, soro de leite, cacau em pó e gordura vegetal], recheio sabor chocolate (16%) [gordura vegetal, açúcar, cacau em pó, glucose, aromatizantes, emulsificante: lecitina de soja (INS 322), conservador: ácido sórbico (INS 200) e umectante: glicerina (INS 422)], calda (16%) [açúcar, glucose, aromatizante e conservador: ácido sórbico (INS 200)], glucose, confeitos açucarados (5%), cacau em pó, leite integral, sal, gordura vegetal, fosfato tricálcico, vitaminas: B1, B2, niacina, B6 e A, umectante: sorbitol (INS 420), emulsificante: mono e diglicerídeos de ácidos graxos (INS 471), fermentos químicos: bicarbonato de sódio (INS 500ii) e pirofosfato ácido de sódio (INS 450i), conservadores: ácido sórbico (INS 200) e propionato de cálcio (INS 282) e acidulante: ácido cítrico (INS 330). Contém Glúten.

ft_prod_1_161_pPrimeiramente, vale destacar que as informações nutricionais presentes no bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro” são apresentadas de forma bastante confusa, o que pode levar o consumidor a interpretar de forma errada as quantidades de cada nutriente que está ingerindo ou oferecendo a seu filho. Uma unidade do produto contém 38g e esta informação é ressaltada na tabela nutricional. Porém, ao lado desta encontram-se 3 asteriscos que remetem a uma legenda com letras minúsculas as quais informam que os valores apresentados são compatíveis com 60g do produto, ou seja, aproximadamente 1e ½ unidades. Este valor se mostrou inadequado, visto que é muito difícil o consumo dessa quantidade apenas – ou a criança consome um bolinho inteiro, ou dois. O quadro 2 mostra os valores referentes a uma unidade do bolinho.

INFORMAÇÃO NUTRICIONAL

Porção de 38g

Quantidade por porção

% VD *
Valor energético

98 kcal

5%

Carboidratos

13,93g

4%

Proteínas

1,26g

2%

Gorduras totais

4,11g

8%

Gorduras saturadas

2,91g

13%

Gorduras trans

0g

**

* % Valores Diários de referência com base em uma dieta de 2000 kcal ou 8400 kJ.** Valor Diário não estabelecido

Quadro 2. Informações Nutricionais presentes em uma unidade (38g) do bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro”.

Com base nas informações do quadros 1 e 2, bem como da tabela 1, é possível perceber que as gorduras totais do bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro” encontram-se em teores classificados como médios, enquanto as gorduras saturadas estão presentes em teores classificados como altos.

Já com relação à quantidade de açúcar, não foi possível realizar uma classificação, uma vez que o rótulo não informa a quantidade de açúcar (em gramas) que foi adicionado no produto. As únicas informações disponíveis quanto ao açúcar, especificamente, é que ele se encontra como o terceiro[1] ingrediente presente na lista de ingredientes do bolinho e como ingrediente do recheio, da cobertura e da calda, presente em altos teores (como primeiro ou segundo ingrediente desses últimos), de forma que a quantidade de açúcar provavelmente representa grande parte dos carboidratos do alimento.

Tabela 1. Referências do Semáforo Nutricional (Food Standarts Agency, 2007) quanto aos teores de gorduras totais, gorduras saturadas, açúcares e sódio.

Nutriente

Bolinho Bauducco

Médio teor

Alto teor

Gorduras totais

10,8g/100g

> 3g e ≤ 20g/100g

> 20g/100g

Gorduras saturadas

7,6g/100g

> 1,5g a ≤ 5g/100g

> 5g/100g

Açúcares

36,6g/100g *

> 5g a ≤ 12,5g/100g

12,5g/100g

Sódio

0,09g/100g

> 0,30g a ≤ 1,50g/100g

1,5g/100g

* Quanto aos “açúcares” do bolinho, foi considerada a quantidade total de carboidratos para a realização do cálculo, uma vez que o fabricante não discrimina a quantidade de açúcar adicionado.

Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira (2005), o consumo de gorduras totais não deve ultrapassar os limites de 15% a 30% da energia total da alimentação diária de um indivíduo adulto. Além disso, o total de gordura saturada consumida não deve ultrapassar 10% do total da energia diária, enquanto o total de gordura trans deve ser menor que 1% do valor energético total diário (no máximo 2g/dia para uma dieta de 2.000 kcal).

Já a I Diretriz sobre o consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular (2013), da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), recomenda que, para crianças, a ingestão de gorduras deve estar entre 25% e 35% (VET).

Se levarmos em conta que a quantidade de gorduras totais presentes em uma unidade do bolinho corresponde a 7,6% do Valor Diário, o consumo de uma unidade já é suficiente para atingir mais da metade da quantidade de gorduras que deve ser consumida em um dia (com base na recomendação de 15% do Guia Alimentar), tendo em vista que o indivíduo ainda irá consumir, pelo menos, mais 2 ou 3 refeições ao longo do dia. Vale ressaltar ainda, que esse Valor Diário é referente a uma dieta de 2.000kcal, um valor de referência para adultos. Quando esse %VD é aplicado à dieta de uma criança, esses percentuais ficam ainda mais críticos e o risco à saúde é ainda maior.

Quando analisado de acordo com a Diretriz da SBC (2013), esse valor de gorduras totais não se mostra tão elevado. Contudo, é importante pensar na qualidade dessa gordura, uma vez que a gordura saturada presente em um bolinho representa 13,3% do Valor Diário para a mesma, ultrapassando a recomendação de 10%, tanto do Guia Alimentar quanto da Diretriz da SBC, com o consumo de apenas um bolinho. Além disso, a tabela de informações nutricionais declara haver 0g de gordura trans na porção – apesar da lista de ingredientes citar o uso de gordura vegetal no produto.

Gordura Trans

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), regulamentou a indicação desta gordura nas informações nutricionais, através da resolução RDC nº 360 de 23 de dezembro de 2003, a qual preconiza que apenas os produtos que contenham ácidos graxos trans em quantidade menor ou igual a 0,2 g por porção sejam designados como zero trans.

É importante destacar que a indústria se baseia em porções estipuladas pela própria Anvisa; no entanto, o fato de a porção apresentar-se como isenta de trans não necessariamente assegura que o produto tenha sido produzido sem essa gordura (Santos et al., 2013).

Desta forma, observa-se que é exatamente este o artifício utilizado pelo fabricante: a declaração de que o produto voltado para crianças apresenta 0g de gordura trans (na porção), apesar de ter a presença de gordura vegetal entre os ingredientes do bolo.

Vale destacar ainda que, atualmente, os principais alimentos que contêm um significativo teor de ácidos graxos trans são: sorvetes, chocolates diet, barras achocolatadas, salgadinhos de pacote, bolos/tortas industrializados, biscoitos, bolachas recheadas, gorduras vegetais hidrogenadas, pães e produtos de panificação entre outros (Merçon, 2010).

Gordura Saturada

Para crianças maiores de dois anos e adolescentes de perfil lipídico normal, recomenda-se que a ingestão de gordura esteja entre 25% e 35% (VET) e < 10% de ácidos graxos saturados (Santos et al., 2013). Já para crianças maiores de dois anos e adolescentes com perfil lipídico alterado, a ingestão de gorduras deve se manter entre 25% e 35% para manutenção de ganho de peso e para crescimento normal. Contudo, a recomendação de ácidos graxos saturados, nesses casos, deve ser 7% do VET (Santos et al., 2013).

Tabela 2. Recomendação de ácidos graxos saturados (g) de acordo com o Valor Energético Total (VET) da dieta (kcal).

VET

Recomendação de gorduras saturadas

10% do VET

7% do VET

2000kcal

22g

16g

1800kcal

20g

14g

1500kcal

17g

12g

1200kcal

13g

9g

Em contrapartida, o bolinho Bauducco fornece cerca de 21% de gorduras saturadas (considerando que 22g é o máximo de gordura saturada que deve ser consumida) – tudo isso, tomando como base um indivíduo que consuma 2000kcal. Em geral, crianças consomem uma dieta com menor quantidade de calorias, o que representa uma quantidade bastante elevada de gordura saturada, aumentando os riscos à saúde, principalmente se a criança apresentar consumo excessivo/diário desse produto alimentício.

Açúcar

O Guia Alimentar (2005) também faz recomendações com relação ao consumo de açúcares simples. De acordo com o documento, o consumo de açúcares simples não deve ultrapassar 10% da energia total diária. Isso significa redução de, pelo menos, 33% (um terço) na média atual de consumo da população.

Como dito anteriormente, a tabela nutricional do bolinho Bauducco não apresenta a quantidade de açúcares adicionados, e sim os carboidratos totais do bolinho. Entretanto, em análise realizada no Laboratório Bromatológico Nacional – lbnanálises – no ano de 2011, foram apresentados resultados mais detalhados (figura 1). O laudo confirmou que 100g do produto continham 41,29g de açúcares (glicose e sacarose), ou seja, uma unidade do bolinho (38g) contém 15,69g destes açúcares.

Figura 1. Análise laboratorial da quantidade de açúcar presente no bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro”, realizada em 2011.

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Classificando de acordo com o Semáforo Nutricional (Food Standarts Agency, 2007), este item ficaria na cor vermelha, indicando o alto teor de açúcar presente no produto. Quando comparado ao valor recomendado pelo Guia Alimentar, a quantidade de açúcar também é considerada alta, visto que 10% de uma dieta de 2000kcal representa 200kcal ou 50g de carboidratos, e uma única unidade do produto já representa cerca de 30% do valor recomendado pelo Guia.

É preciso que haja revisão da composição, da publicidade, e das informações nutricionais presentes na embalagem do produto, visto que estes encontram-se em desacordo com o que seria aceitável para a manutenção de um padrão alimentar saudável. Além disso, destaca-se que as informações presentes no rótulo, pelo fato de não serem claras, podem levar o consumidor à confusão no momento da compra e prejudicar a escolha do alimento.

Ao realizar a análise nutricional do bolinho Bauducco, conclui-se que este é um produto alimentício com elevados teores de açúcar e gorduras, principalmente gordura saturada. Este fato torna-o não recomendado para o consumo frequente por crianças.

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Publicidade de Alimentos e obesidade infantil: uma ligação nem sempre visível

Por Esther Radaelli e Maíra Mendonça.

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O excesso de publicidade de alimentos voltada para o público infantil é um dos fatores que contribuem para o aumento da obesidade infantil. Especialistas acreditam que uma das saídas para este problema é a regulamentação deste setor.

Como explicar para as crianças e até mesmo para os próprios pais que um determinado alimento pode ser prejudicial à saúde, mesmo com toda a produção publicitária dizendo o contrário? Esse foi um dos principais questionamentos levantados ao longo do V Seminário de Saúde Alimentar e Nutricional de Vitória, cujo tema foi “Publicidade de alimentos e o seu impacto social”. O evento, realizado no dia 09 de agosto na Prefeitura Municipal de Vitória, reuniu pesquisadores e estudantes das áreas de Nutrição, Comunicação e Direito para discutir a influência das estratégias publicitárias sobre o consumo das crianças e os consequentes prejuízos causados à saúde, entre eles, a obesidade.

A publicidade estimula o consumo. Até aí, nada de novo. O problema é quando tal estímulo está associado a ideias enganosas ou fantasiosas e tem como foco um público certo: o público infantil. De acordo com informações do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, somando canais de televisão abertos e fechados, 44% do total de propagandas alimentícias destina-se a crianças. Salgadinhos, sucos de caixinha e todos os tipos de guloseimas tornaram-se rotina na dieta alimentar dos pequenos, sempre estimulados por belas propagandas. O consumo de alimentos, especialmente nesta faixa etária, é, além de tudo, uma forma de as crianças se integrarem nos grupos. Quando ela passa a interagir com as demais, que consomem determinados produtos, também irá querer adotar o mesmo hábito.

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN – 2000), estima-se que no Brasil cerca de 20% das crianças apresentam algum grau de excesso de peso. “Como as crianças estão expostas por muito tempo aos estímulos da publicidade, sua influência sobre a alimentação é direta. Ainda mais porque as indústrias usam de mecanismos que tocam diretamente o consciente e o inconsciente delas. O uso de personagens do universo infantil, os efeitos visuais e sonoros e o falso discurso de consumo saudável são perversos. A indústria sabe muito bem disso, tanto que investe cada vez mais em estudos e práticas de como influenciar as crianças para o consumismo”, critica o professor de Comunicação Social da Ufes e Coordenador do Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas e sistemas, Edgard Rebouças. Desde 2011, o Observatório, em parceria com o Instituto Alana, desenvolve a pesquisa “Monitoramento da publicidade de produtos e serviços destinada a crianças”. Trata-se de um estudo longitudinal no qual os pesquisadores monitoram a publicidade de produtos e serviços destinados às crianças em programações de 15 canais, durante as semanas que antecedem datas comemorativas como Páscoa, Dia das Crianças e Natal.

A gerente de segurança alimentar e nutricional de Vitória, Laydiane Silote Barbosa, é também uma das organizadoras do evento. Ela explica que uma das principais consequências do consumo diário de alimentos hipercalóricos pelas crianças é a obesidade infantil, que traz consigo outras complicações, tais como o colesterol alto e o diabetes, podendo aumentar, inclusive, o risco de problemas cardiovasculares. “O que vemos atualmente é uma moldura de criança num corpo de idoso”, esclarece Laydiane. A nutricionista acredita que a importância de seminários como este reside na possibilidade de reunir diferentes áreas na discussão sobre este tema, somando forças para combatê-lo.

Já o professor Edgard acrescenta que um grave problema que vem ocorrendo é que empresas do setor de alimentos e a mídia têm feito campanhas alegando que o simples fato de discutir esse assunto é uma tentativa de censurar suas atividades. “Censura é impedir que haja debate. E as pressões sobre os órgãos públicos são muito grandes, por isso, toda iniciativa como esta merece aplausos. O fato de a Prefeitura de Vitória resgatar esse tema pode incentivar a que outras prefeituras se interessem também por isso”, analisa ele. Outro questionamento levantado por Edgard durante o seminário é a tentativa da publicidade de ocupar o lugar de autoridade em alimentos e saúde, enquanto esse lugar é, de fato, dos nutricionistas. A questão é que muitos dos nutricionistas, quando vão trabalhar nessas indústrias, acabam adotando ou cedendo ao mesmo discurso.

Em sua tese de doutorado concluída em 2009, a professora de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), Renata Monteiro, buscou verificar como os aspectos psicossociais e situacionais influenciam no consumo e alimentação das crianças. Para tanto, o estudo teve como principal objeto as atitudes e os comportamentos das crianças diante de alimentos saudáveis e não saudáveis. Foram analisadas 290 peças publicitárias de alimentos que apresentaram mensagens destinadas ao publico infantil. Estas peças foram apresentadas na televisão 6.183 vezes, representando 77,2 % do total de exposições de peças publicitárias de alimentos no período de um ano. Destas exposições, Renata constatou que 3,3% eram referentes a produtos saudáveis, enquanto 96,7% eram referentes a alimentos não saudáveis.

Durante sua palestra no seminário, Renata evidenciou algumas das estratégias, muitas vezes enganosas, utilizadas pela publicidade para atrair cada vez mais a atenção do público infantil. Estratégias estas que vão muito além da confecção de embalagens atraentes ou da utilização de recursos lúdicos. As estratégias de marketing estão em todos os lugares, às vezes de maneira tão sutil que passam despercebidas aos olhos dos consumidores menos atentos. Esse é o caso, por exemplo, da disposição das mercadorias nas prateleiras do supermercado e da presença de stands, que deixam os produtos na altura dos olhos das crianças e também próximos aos caixas, estimulando o seu consumo.

Além disso, elas estão migrando para novos espaços, como é o caso da internet. Já é possível observar uma gama de produtos que contêm em sua embalagem o endereço de sites, em que as crianças encontram uma série de jogos e outras atividades. Segundo a professora Renata, mais uma forma de deixá-las por mais tempo em contato com as marcas dos alimentos. Para a professora, um fator também agravante é o surgimento e a difusão do chamado “marketing nutricional”, em que os fabricantes focam nas qualidades de seus produtos, enquanto omitem as informações negativas. Outra variação do marketing nutricional é a associação indireta dos produtos a uma alimentação saudável por meio de propagandas e ações que visam dar dicas de saúde. “É importante destacar que o problema da publicidade não é só o que está sendo anunciado, mas também a forma como ele é apresentado, a importância que é dada a ele e como ele é associado a um comer dos dias de hoje”, evidencia Renata.

Regulamentação

Mariana Ferraz, advogada, mestranda em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo (USP), é integrante do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor). Como ela mesma explica, o Idec é uma organização não governamental, mantida por associados, e tem uma natureza de reivindicação e proposição de políticas públicas. Um dos temas centrais para os órgãos que defendem o consumidor é a publicidade. A advogada explica que esta é uma preocupação internacional. O que acontece, é que a regulação da área pouco existe aqui em nosso país. “O Brasil está muito aquém do que a gente gostaria. E podemos até comparar com outros países, que possuem iniciativas que inspirariam o Brasil a ter uma regulação mais avançada nesse sentido. Só para citar um exemplo recente: o Peru, este ano, aprovou uma lei que regula a publicidade, proibindo anúncios direcionados para crianças e também a publicidade realizada dentro das escolas. Além de colocar vários critérios para a publicidade de alimento, de forma que o consumidor seja informado sobre a sua natureza. É o que tentamos aprovar no Brasil há muito tempo, mas enfrentamos uma resistência muito grande do setor da indústria e publicitário”, explica.

Segundo Mariana, no Peru também houve uma forte resistência, porém a lei conseguiu ser aprovada. Para ela, com vontade política as coisas podem acontecer. Mas ela já percebe uma mudança no cenário brasileiro que é fundamental neste processo: a apropriação do tema por parte da sociedade civil – por mais que dificilmente a mídia trate do assunto, por ser um tema que pode “ferir” os interesses dos anunciantes. Mariana garante que esta é a melhor maneira de pressionar o poder público para que alguma medida seja tomada, através da informação. A produção de documentários que abordem e debatam sobre o tema são essenciais neste processo, como o “Muito além do Peso”, exibido no evento.

A advogada informa que existem tentativas de regulamentação do setor. Uma delas é a RDC 24, proposta pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Essa resolução teve uma ampla consulta pública e, como explica Mariana, continha as seguintes proposições: regulação do horário das publicidades de alimentos de forma a proteger as criança e o alerta em publicidades televisivas, avisando sobre alimentos que possuem altos teores de substâncias como sódio e açúcar. Mas quando a Anvisa publicou a resolução, a primeira disposição mencionada havia sido retirada. Mesmo assim, ainda tinha sido um avanço. Porém, logo depois da publicação vieram inúmeras reclamações da indústria e de setores publicitários de que a Anvisa não tinha competência para lidar com este assunto. “O Brasil se encontra hoje no limbo, essa resolução está publicada, mas está suspensa. O governo está aguardando pra resolver esse imbróglio…”, lamenta Mariana.

Então, enquanto não existe um progresso substancial nessa área, o setor continua sendo autorregulado, não dando conta de atender as demandas necessárias. Para Mariana, o Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) consegue resolver as questões de concorrência entre marcas, mas afirma que não é possível designar um órgão que não é governamental para cuidar de interesses públicos. “Há um conflito de interesses patente aí”, ressalta.

Ainda sobre a regulamentação do setor, o professor Edgard afirma que o poder público precisa tomar a iniciativa de defender o interesse público, e não somente os privados. “O problema da obesidade já é classificado pela Organização Mundial da Saúde como uma pandemia, que tende a se agravar nos próximos anos. Se medidas de políticas públicas não forem adotadas urgentemente, os resultados para a saúde coletiva serão enormes a médio e longo prazo. Sou favorável que haja medidas em âmbito municipal, estadual e federal, não apenas sobre a publicidade, mas no estimulo à mudança dos hábitos alimentares”, conclui.

Fonte: Universo.UFES

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Seminário discute políticas de combate à obesidade infantil

Por Camila Araújo.

Deputado Alexandre Roso na abertura do Seminário.

Na última terça (22/10), ocorreu na Câmara dos Deputados o Seminário sobre Obesidade Infantil, realizado pelo Deputado Federal Alexandre Roso (PSB-RS) juntamente com a Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF).

O assunto é motivo de grande preocupação entre especialistas. Pesquisas recentes mostram que 30% das crianças com idade entre 5 e 9 anos estão acima do peso e 15% são obesas. O resultado é o surgimento de doenças crônicas como hipertensão, diabetes, problemas renais e até alguns tipos de câncer.

Na abertura do evento, o deputado Beto Albuquerque (RS), citou a presença de uma publicidade intensa na TV, principalmente nos canais infantis, com estímulo à “comer qualquer coisa”, ou seja, alimentos não saudáveis.  Beto também defendeu a aprovação do Projeto de Lei nº 3.874/12, de autoria de Roso, que cria a Semana de Mobilização Nacional contra a Obesidade Infantil. “É preciso levar a discussão para as escolas, para a comunidade e para toda a família, e escolher uma semana do ano para fazer isso de maneira mais intensa, é fundamental”.

Em seguida, Alexandre Roso citou que existe um grande número de Projetos de Lei (PL) na Casa: de 39 projetos, 15 PLs tratam especificamente de espaços apropriados para receber pessoas obesas (como é o caso de reservar assentos para obesos em ônibus e aviões) e cerca de apenas 30% de todos os PLs trabalham na questão da educação como auxílio no combate à obesidade, enfatizando a necessidade de investimento em políticas públicas que auxiliem na prevenção da doença, principalmente aquelas de incentivo à prática de atividades físicas – “O que vemos atualmente são ações para quando o problema já existe, e não para a prevenção”. Roso chamou atenção para o atual quadro de obesidade infantil, que muitas vezes não é visto como um problema de saúde, mas apenas uma desordem estética: além do bullying e discriminação que muitas crianças acima do peso sofrem, o desenvolvimento de diversos problemas de saúde como hipertensão arterial, diabetes ou problemas ortopédicos, por exemplo, são bastante preocupantes, destacando-se a importância dos pais se atentarem para isso e buscar um tratamento para seus filhos. Além disso, discutiu o fato de a obesidade ter causas multifatoriais (nutricionais, psicológicas, médicas, genéticas, hormonais, ambientais, etc), o que dificulta o seu tratamento. No caso de crianças, essa situação é ainda pior, já que, de uma forma geral, não podem ser submetidas ao tratamento com terapia medicamentosa ou à cirurgia bariátrica.

Vídeo do Hospital Albert Einstein sobre obesidade infantil exibido na abertura do Seminário.

Patrícia Jaime, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, citou todos os esforços desenvolvidos pelo MS, por meio da Política Nacional de Alimentação e Nutrição, para auxiliar na questão do excesso de peso da população – como o Programa Saúde na Escola (PSE); o Manual das Cantinas Escolares Saudáveis, voltado para escolas particulares; acordos do MS com a indústria de alimentos para redução dos teores de sódio e açúcar em produtos industrializados, entre outros. Patrícia destacou a importância da regulação da publicidade de alimentos, mostrando alguns esforços estaduais e municipais para legislar sobre o tema. Ainda lembrou que a população brasileira experimentou grandes transformações sociais que acarretaram profundo impacto na diminuição da desnutrição no País. “Por outro lado, observamos um aumento do excesso de peso que nos apontou um novo cenário de problemas relacionados à alimentação e nutrição. Esse é nosso desafio. Acabar com a desnutrição sem deixar de lidar com a questão da obesidade, especialmente entre as crianças”, ressaltou.

Paulo César, representante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, citou que, atualmente, o excesso de peso em crianças e adolescentes contribui para uma maior causa de mortes que a desnutrição. Paulo César citou em sua fala que “saúde não é consequência de contagem de calorias”, sendo importante uma alimentação saudável e a prática de atividade física.

Maria Edna, representante da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), chamou atenção para que o diagnóstico de sobrepeso e obesidade em crianças seja realizado com base nas curvas de crescimento da OMS, uma vez que o diagnóstico por meio apenas do IMC, com a classificação de adultos, é totalmente enviesado. Além disso, destacou a importância da atividade física no tratamento da obesidade.

De acordo com a nutricionista Sophie Deram, a mudança no meio ambiente foi decisiva para o aumento da obesidade infantil em todo o País. Sophie acredita que o rápido processo de urbanização e de industrialização foi fundamental para modificar a forma da população se alimentar. “A indústria trouxe muitos alimentos atrativos para as crianças e para os jovens, só que nem sempre saudáveis.” Ainda destacou a influência do comportamento alimentar no excesso de peso, citando que, além de uma dieta de melhor qualidade, é importante a adoção de hábitos como comer à mesa, de preferência, com a família reunida, manter uma rotina diária com 4 a 5 refeições, dormindo bem e assistindo menos televisão, sem focar apenas na questão do peso, mas da saúde.

Paulo César e Sophie Deram destacaram ainda a contribuição da programação metabólica que os indivíduos sofrem desde a vida intra-uterina – bem como da saúde dos pais no momento da geração de uma nova vida – sendo importante a promoção da saúde em todos os ciclos da vida.

A psicóloga Clarisse Ribeiro, do Hospital da Criança de Brasília, ressaltou todos os problemas de ordem emocional e/ou social que o problema da obesidade pode carregar (já que muitas pessoas, inclusive crianças, veem na comida uma válvula de escape, compensação ou recompensa) e destacou que a família tem um papel importante no tratamento da obesidade infantil.

Por fim, a advogada Ekaterine Karageorgiardis, do Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana, discorreu sobre a influência da comunicação mercadológica dirigida à criança, com estímulo à adoção de hábitos consumistas e pouco saudáveis. Para Ekaterine, o aumento do consumo das chamadas guloseimas está diretamente relacionado ao estímulo dos meios de comunicação. Pesquisas apontam que, no Brasil, as crianças influenciam em até 80% as decisões de consumo das famílias.

O Código de Defesa do Consumidor traz dispositivos que tratam da propaganda abusiva e enganosa. Assim como o Estatuto da Criança e Adolescente, que também dispõe de uma série de mecanismos de proteção, inclusive na área da publicidade, conforme lembrou Ekaterine. “Existem mecanismos legais, mas eles não são bem aplicados. Por isso vemos a necessidade de políticas específicas. Precisamos também de mecanismos mais eficazes de fiscalização.”

De uma forma geral, todos os especialistas apontaram a mudança de hábitos (não só da criança, mas de toda a família) como a principal maneira de combater a doença, especialmente entre as crianças. “Hoje existe um desestímulo à prática de atividade física. As crianças são estimuladas a ficar no computador, no videogame ou no celular”, observou Maria Edna. Segundo ela, a modificação desse comportamento é fundamental. “Mas é preciso entender que essa mudança envolve toda a família. Envolve também a escola e todo ambiente no qual a criança transita”, acrescenta.

Com algumas informações da Câmara dos Deputados e do PSB.

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