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A comercialização da infância

Por Camila Araújo e Camila Leão (Fonte: RedeNutri).

consuming-kids-imageDocumentário mostra a relação das estratégias de marketing para crianças e o precoce consumismo desenfreado no público infantil.

O documentário CONSUMING KIDS – The commercialization of childhood (Consumo de Crianças – A comercialização da infância), produzido nos Estados Unidos em 2008 com direção de Adriana Barbaroe Jeremy Earp, mostra a influência negativa do marketing na infância.

O documentário, de aproximadamente 1 hora, mostra em detalhes a relação das estratégias de marketing para crianças e o precoce consumismo desenfreado no público infantil.

Já está comprovado que a publicidade infantil influencia negativamente o padrão de consumo de crianças e adolescentes, e o que o documentário retrata é uma realidade assustadora do assédio das empresas de marketing às crianças.

O estímulo ao consumismo, demonstrado pelo documentário, cria uma geração de pessoas com valores deturpados e com problemas graves de saúde, tanto físicos quanto mentais.

Confira abaixo:

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Dia das Crianças

Texto escrito por Grace Barbosa e retirado do Blog Mãezíssima (com adaptações). 

Outubro chegou e com ele o Dia das Crianças e a nossa vontade quase incontrolável de dar presentes aos nossos filhos. Presentear é tudo de bom, é gostoso ver os olhinhos brilharem diante de um pacote. Gostamos de saber que conseguimos comprar algo que eles vão gostar, gostamos de pensar que estamos fazendo nossos filhos felizes. Mas os tempos são outros e o não dá mais para ver essa cena sem pensar em consumo consciente e publicidade infantil.  

criança vendo TVA verdade é que hoje em dia não dá para ser inocente quando o assunto é consumo. Principalmente quando nossas crianças são bombardeadas por publicidade infantil. De repente é um querer por minuto e comprar aquele presente não satisfaz um desejo que a criança não sabe expressar. Nós pais acabamos incumbidos de proteger nossas crianças de uma indústria que não vende simplesmente brinquedos, mas valores, desejos e necessidades. E quem disse que estamos preparados para lidar com tudo isso? Se nem adultos conseguem passar ilesos por tantas propagandas, imagem uma criança que é muito mais vulnerável a esse tipo de investida.

Na geração das nossas mães não existia a preocupação com a educação para o consumo. Não existia acesso, facilidades, muito menos publicidade. Somos talvez a primeira geração de pais que precisa se preocupar com a publicidade que seu filho está sendo exposto. E mais do que isso, que tipo de consumidor estou criando. Estou mostrando o valor das coisas? Estou ensinando o uso e consumo consciente? Não tá fácil para as Mãezíssimas Paizíssimos.

Hoje em dia, existem muitos sites com informações esclarecedoras sobre os efeitos prejudiciais à infância da publicidade infantil brasileira. Os alertas remetem a erotização precoce, obesidade infantil, altos índice de violência, estresse familiar e tanta coisa ruim que a gente quer manter bem longe dos nossos filhos. Ler e se informar sobre esses temas é o primeiro passo para criar consumidores conscientes. Precisamos ensinar nossos filhos a entender o que eles realmente querem, e o que querem que eles queiram.

10 motivos

O documentário “Criança – A alma do negócio” mostra de forma muito interessante, como a publicidade influencia as escolhas e os comportamentos das crianças. Para aqueles que ainda tiverem tempo de assistir antes das comemorações e quiserem fazer uma boa reflexão a respeito do tema:

Então, o que fazer no Dia das Crianças?

É preciso exercitar a nossa criatividade para fugir do que está imposto! Que tal um programa diferente, como por exemplo, ensinar aos seus filhos algumas brincadeiras da sua época? É bacana pensar que cada família pode encontrar sua forma de ensinar sobre uso e consumo consciente. Sobre o valor das coisas e principalmente: coisas são coisas, gente é gente! O velho e super atual “ser é mais importante do que ter”.

Fato: Não está fácil par ninguém, mas precisamos fazer nosso papel de pais responsáveis e principalmente formadores de cidadãos conscientes. Buscar o equilíbrio nesse assunto é extremamente delicado, é tentador ir a qualquer um dos extremos: dar tudo ou zerar o consumo. A chave é achar um meio termo que funcione para você e sua família, lembrando que você é o adulto responsável, que pode se informar e deve saber fazer escolhas. Deixe que a criança seja criança.

troca de brinquedos

Dicas que podem ajudar:

– Lembre-se que nenhum brinquedo é mais legal do que ter o papai ou a mamãe ao lado.

– Restrinja o tempo de TV do seu filho. Outra opção é trocar por DVDs, youtube, Netflix.

– Participe de Feiras de Trocas de Brinquedos.

– Escolha brinquedos junto com seu filho para doação.

Vamos fazer um Dia das Crianças diferente do comum e com certeza, muito mais divertido e consciente!

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Famintos por Mudança

Por Camila Araújo e Camila Leão.

O documentário Famintos por Mudança (Hungry for Change) nos foi recomendado por uma das leitoras do blog e professora da Universidade de Brasília. Não vamos falar muito sobre ele, pois acreditamos que todos deveriam assistir. Porém, já podemos adiantar que o documentário trás um debate muito interessante sobre temas polêmicos como o poder e os interesses da indústria de alimentos, o vício dos industrializados, dietas da moda, armadilhas do marketing com produtos e rótulos enganosos, enfim, tudo isso apresentado de forma dinâmica e real, contanto com depoimentos de pessoas que já viveram na pele o drama da obesidade e que conseguiram superar. Vale a pena assistir!

 

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Bebês Fast Food

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Atualmente, dependência dos junk foods está afetando faixas etárias cada vez mais jovens, e agora estamos criando uma geração de bebês viciada em fast food. Este documentário produzido mostra bebês e crianças que tem uma dieta baseada em batatas fritas, hambúrgueres, kebabs, etc – tudo regado a muito refrigerante. Explorando as razões profundas pelas quais os pais recorrem à alimentação junk food, o filme segue três famílias à medida que tentam desesperadamente voltar a uma dieta equilibrada. Para isso, os pais contarão com uma equipe de especialistas que irão orientá-los através das técnicas mais recentes na difícil tarefa de mudar seus hábitos alimentares e afastar seus filhos do fast food.

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Exibição do documentário Muito Além do Peso foi um sucesso!

Por Camila Araújo e Mariane Bandeira.

A exibição do documentário Muito Além do Peso, promovida pelo PropagaNUT na noite da última segunda-feira (8/7) na Livraria Cultura, foi um sucesso!

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Mesa Redonda – Renata Monteiro, Raquel Fuzaro, Eduardo Damasceno e Elisabetta Recine.

Renata Monteiro: professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília e coordenadora do PropagaNUT – moderadora da discussão.
Raquel Fuzaro: advogada, ativista social e mãe, membro do Movimento infância Livre de Consumismo.
Eduardo Damasceno: publicitário, sócio e diretor de criação da agência de comunicação Albergue Criativo e sócio e designer da empresa de objetos criativos dZáin.
Elisabetta Recine: professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília, conselheira do Consea e também uma das entrevistadas no documentário.

O evento contou com convidados especiais de diversas áreas, o que enriqueceu o debate, já que trouxe argumentos do ponto de vista acadêmico e da sociedade civil. Foi falado sobre políticas públicas e ações de Educação Alimentar e Nutricional nas escolas e de como elas têm um papel importante na formação e ensino de hábitos alimentares – mas como isso ainda é pouco explorado nas disciplinas e atividades escolares. Além disso, foi discutido também sobre as experiências de cada um em diferentes papéis – como mãe ou como indivíduo influenciado pela mídia, por exemplo -, sobre como os alimentos industrializados estão “arraigados” no nosso dia a dia e de como existe uma dependência do seu consumo na sociedade atual.

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Renata Monteiro – coordenadora do PropagaNUT.

A discussão contou ainda com a participação da plateia debatendo o seu ponto de vista sobre o tema, os impactos que o filme gerou, bem como a sua experiência com os filhos em relação ao contexto atual e a alimentação.

A equipe do PropagaNUT agradece a presença de todos que participaram dessa noite conosco. Esperamos ter contribuído um pouco mais para despertar a reflexão e conscientização a respeito dos problemas relacionados a má alimentação, com o consumo excessivo de alimentos industrializados, a influência da publicidade na formação dos hábitos alimentares e como tudo isso culmina no crescimento  da epidemia atual de obesidade.

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Equipe do PropagaNUT e convidados: Camila Leão, Renata Monteiro, Raquel Fuzaro, Eduardo Damasceno, Elisabetta Recine, Camila Araújo e Mariane Bandeira.

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Açúcar, Sal e Gordura: as engrenagens da ‘junk food’

Tenho um amigo que tenta me ensinar como é o modo “perfeito” de comer uma determinada batata frita industrializada. “Você coloca sobre a língua, mas virada para cima, e deixa que as papilas gustativas entrem em contato com a batata. Aí pressiona delicadamente, com os dentes, num crac. Ela vai se desmanchar em puro prazer.” É assim mesmo que ele fala e, ao falar, sua voz ganha solenidade. Ele fecha os olhos para demonstrar a intensidade da sua fruição. Em seguida, me pergunta: “Você sentiu o crac, seguido pela explosão de sabores”?

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Meu amigo trata a batata como se fosse uma hóstia, e sempre achei graça da sua devoção por algo que vem dentro de um tubo, nos sabores mais bizarros, mas que, sim, desmancha na boca e dá prazer. A junk food (comida e bebida tranqueira, porcaria e que faz muito mais mal do que bem) não é a minha igreja. Embora já tenha lido artigos e livros e assistido a alguns documentários sobre os métodos da indústria da alimentação, que muito se parece com a do tabaco, eu não tinha uma ideia tão precisa de que, ao expressar seu deleite, meu amigo transformava-se não apenas num consumidor, mas num produto. E num produto muito bem acabado de milhares de cientistas, psicólogos e marqueteiros a serviço das corporações de alimentos. Meu amigo, tão inteligente, tornava-se o consumidor perfeito – ou o idiota perfeito.

Os métodos da indústria de junk food foram dissecados pelo jornalista americano Michael Moss num livro-reportagem que acabou de ser lançado: Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us. Em tradução livre: “Sal, Açúcar, Gordura: Como os Gigantes da Comida nos Escravizam”. Moss é um repórter investigativo que ganhou o Pulitzer de 2010, o prêmio mais prestigioso dos Estados Unidos, pelo seu trabalho sobre a indústria da carne. Em 20 de fevereiro, ele escreveu uma reportagem no The New York Times, abordando alguns dos principais tópicos do livro, que pode ser lida aqui. Para escrever sobre a indústria de junk food, o jornalista afirma ter entrevistado mais de 300 pessoas, entre cientistas, marqueteiros e CEOs das grandes corporações. Segundo ele, alguns estavam ansiosos para extravasar o que estava preso na garganta. Outros só falaram, com muita relutância, depois de serem confrontados com algumas das milhares de páginas de relatórios secretos obtidos de dentro da indústria. Entre os relatos escabrosos, aparece inclusive o Brasil: um alto executivo de uma companhia de refrigerantes (demitido quando quis mudar os métodos) conta como peregrinou pelas favelas brasileiras, para expandir o mercado a partir da estratégia de convencer pobres a consumir o que não precisam.

Ao final da investigação, o jornalista compôs um retrato sombrio sobre os métodos da indústria para manter os consumidores cativos, apesar da epidemia de obesidade que atinge não só os Estados Unidos, mas parte do mundo. Michael Moss chega a uma conclusão que, não fosse a qualidade da apuração jornalística, soaria como teoria conspiratória: a intensidade, tanto da fórmula química quanto das campanhas de venda, torna as pessoas extremamente vulneráveis, sendo quase impossível resistir. Para Michael Moss, a junk food parece ser uma espécie de droga sintetizada a partir de três ingredientes: sal, açúcar e gordura. Em seu trabalho, ele prova que CEOs, marqueteiros e cientistas sabem que estão produzindo não apenas salgadinhos, doces e refrigerantes, mas adultos e crianças com problemas cardíacos, hipertensos, diabéticos e com uma série de doenças relacionadas, que terão a vida encurtada no final e limitada no meio. Mas o que vale são os lucros – e eles são cada vez mais superlativos.

Entre as muitas declarações colhidas pelo jornalista, há algumas que se destacam pelo cinismo. “Eu otimizo sopas. Eu otimizo pizzas. Eu otimizo molhos para saladas. Nesta área, eu sou aquele que vira o jogo”, diz Howard Moskowitz, uma lenda da indústria, que há décadas vem “otimizando” produtos em baixa e transformando-os em armadilhas letais para homens, mulheres e crianças, usando para isso muito dinheiro, equipes de primeira linha e pesquisa de ponta. O cientista assim afirma sua total falta de conflito por produzir morte: “Não existe questão moral para mim. Eu fiz a melhor ciência que pude. Precisava sobreviver e não podia me dar ao luxo de ser uma criatura moral. Como pesquisador, sempre estive à frente do meu tempo”. Moskowitz estudou matemática e tem Ph.D em psicologia experimental em Harvard.

Assorted Junk FoodA reportagem mostra como vários produtos, de diferentes corporações, foram “otimizados” para dar ao público algo do qual ele não conseguiria escapar: o “bliss point” – que pode ser traduzido como o “ponto da felicidade”. Para atingi-lo, é necessário não apenas encontrar o sabor, a textura e a quantidade precisa dos ingredientes, a maioria deles nocivo à saúde, mas também investigar em profundidade os pontos de fragilidade de homens, mulheres e crianças. Identificar as barreiras – e quebrá-las uma a uma. As mães prefeririam dar comida saudável para seus filhos? Ok, mas sua principal queixa é a de que não têm tempo. Logo, é o tempo o flanco descoberto a ser atacado. Como alcançar as crianças diante da TV? Ora, com truques psicológicos como um slogan como este, de um produto que embala desejos de autonomia frente aos pais: “Todo dia você faz o que eles dizem. Mas na hora do lanche é você quem manda”.

Até hoje a indústria trabalha com a lista de “sete medos e resistências” à batata frita de saquinho, identificada ainda em 1957 pelo psicólogo Ernest Dichter: 1) você não consegue parar de comê-las; 2) elas engordam; 3) elas não fazem bem para você; 4) elas são gordurosas e fazem sujeira; 5) elas são muito caras; 6) suas sobras são difíceis de guardar; 7) fazem mal para as crianças. A partir desta descoberta, o psicólogo sugeriu à indústria mudanças como: em vez de usar a palavra “frito”, usariam “assado” ou “tostado”; para não dar a ideia de excesso, os salgadinhos passariam a ser vendidos em embalagens menores. Em outras palavras: o caminho era – e continua sendo – ajudar o consumidor a não ter culpa de comer o que faz mal para ele.

Como quando nos deparamos nos supermercados e lanchonetes com aquelas embalagens dizendo, em letras grandes: “Não tem gordura trans”. Em alguns casos, o produto nunca teve gordura trans, mas, ao dizer o óbvio, ajuda-nos a eliminar a culpa, ao alimentar de fato a nossa autoilusão de que podemos comer uma porcaria sem causar danos à saúde. É claro que o restante dos excessos, como a quantidade alarmante de sódio e/ou de açúcar etc, figura em letras bem menores. Como disse um dos entrevistados na reportagem: “O que precisamos fazer é remover as barreiras, dando aos consumidores permissão para beliscar”. Dito de outra maneira: “ótimo sabor, máximo prazer e mínima culpa com relação à saúde”.

Um dos casos esmiuçados na reportagem mostra como uma empresa diminuiu a quantidade de sódio de um determinado produto, marcando três gols ao mesmo tempo: fez bonito para o público, ao aparecer como uma companhia preocupada com a saúde; economizou milhões de dólares em sal, um insumo importante; e vendeu muito mais, porque os consumidores se autorizaram a comprar o produto por conta da redução de sódio e da mudança de imagem da empresa. Na prática, em grande escala era uma economia considerável para o fabricante, mas a redução, para o consumidor individual, era tão pequena que em nada diminuía o impacto nefasto sobre a saúde. É este o truque para nos fazer engolir, contentes e confortavelmente iludidos, aquelas embalagens que anunciam: “Agora com menos sódio”. A máxima das indústria de junk food é conhecida: sal, açúcar e gordura – tira um, aumenta os outros dois e estampa no rótulo aquele que diminuiu. Baseado em depoimentos e documentos internos, Michael Moss pôde afirmar: “A intenção das companhias é usar a ciência não para responder às questões de saúde, mas sim para evitá-las”.

Descobri que meu amigo tem poucas chances de resistir ao “crac” da batatinha lendo a seguinte descrição sobre o fabuloso complexo de pesquisa de um dos fabricantes: “Perto de 500 químicos, psicólogos e técnicos realizaram pesquisas que chegaram a custar até 30 milhões de dólares ao ano. A equipe de cientistas concentrou a maior parte dos recursos em questões como a crocância, a sensação tátil na boca e o sabor de cada um dos itens. Suas ferramentas incluíam um equipamento de 40 mil dólares que simulava uma boca mastigando, apenas para testar e aperfeiçoar o produto”. Com todo esse arsenal humano, científico e tecnológico, alcançaram a Lua: o ponto perfeito de quebra do salgadinho diante da pressão média de uma mordida humana.

Enquanto tudo isso acontece, lá na ponta há alguém – na realidade centenas de milhões de alguéns – como o meu amigo, extasiado com a hóstia de uma indústria que, diante do relato de Michael Moss, poderia encarnar uma versão contemporânea do Mefistófeles. De fato, o poder desse personagem em nosso tempo seria bem vulgar, prosaico como tem sido nossos desejos. Steven Whiterly, um cientista da área de alimentos que escreveu um guia citado por Moss e intitulado Why Humans Like Junk Food (“Por que Humanos Gostam de Junk Food”), assim explica a epifania da batatinha frita de saquinho: “É a chamada ‘densidade calórica evanescente’. Se algo dissolve rapidamente (na boca), nosso cérebro entende que não há calorias ali… E que podemos continuar comendo aquilo para sempre”.

No Brasil, o relato mais impressionante sobre a indústria de junk food e a epidemia de obesidade em crianças está no documentário “Muito além do peso”, de Estela Renner. O filme foi lançado em novembro e está disponível na internet. Se você ainda não assistiu, reúna a família ou os amigos e clique aqui. É quase obrigatório. Ao peregrinar pelo Brasil, a diretora busca responder à pergunta: por que 33,5% das crianças brasileiras estão acima do peso. Ou algo ainda mais alarmante: por que, pela primeira vez na história, há um número crescente de crianças com problemas de adultos – de coração, de respiração e diabetes do tipo 2 –, relacionados à obesidade. “Eu abro a felicidade”, diz uma criança, ao falar sobre o que sentia ao abrir um de seus produtos preferidos, demonstrando a relação íntima entre consumo e propaganda.

muito_alem_do_peso_-_salgadinhoEm “Muito Além do Peso”, testemunhamos meninos e meninas que adoram batatas em saquinhos, mas não reconhecem uma batata ao natural – ou que confundem um abacate com um pimentão. Em um dos depoimentos, uma médica conta como uma das crianças que frequentam seu consultório precisa se esconder no banheiro da escola para comer uma fruta no recreio, com medo de ser hostilizada pelos colegas. Não é engraçado, é só triste. Entre os muitos achados de um filme feito para informar, provocar reflexão e promover mudança está a possibilidade de visualizar a quantidade de açúcar contida em alimentos presentes no cotidiano de quase todos. É um susto quando enxergamos o açúcar correspondente a uma lata de refrigerante, por exemplo, ou a gordura que há num saco de salgadinhos. Crianças com dor nas pernas para caminhar e que já não podem jogar futebol ou brincar, meninos e meninas ofegantes, com problemas cardíacos, contam e se contam na tela como vítimas de uma epidemia que já lhes rouba a vida. Como a garota que já teve trombose, ou o guri pequeno e já obeso que esperneia diante de pais impotentes até ganhar salgadinho.

Não é fácil ser pai e mãe diante de um assédio tão poderoso e tão insidioso como o da indústria de junk food. Mas é preciso ser pai e mãe. Segundo pesquisas apresentadas em “Muito Além do Peso”, crianças com sobrepeso aumentam o consumo de alimentos com alto teor de gordura, sal e açúcar em 134% quando expostas à publicidade. A média diária de permanência diante da televisão é de cinco horas. Como disse um dos entrevistados no documentário, referindo-se à publicidade na TV: “Você deixaria um vendedor formado em Harvard sozinho com o seu filho, dentro da sua casa, por tanto tempo”?

Documentários como o de Estela Renner e livros como o de Michael Moss são oportunidades para pensar e entender o que está acontecendo, enquanto somos tonteados por apelos de consumo dentro e fora de casa. São também estímulos para romper a passividade e tomar posição. No Brasil, as lutas vêm sendo travadas em vários palcos: dentro de casa e das escolas, na Justiça e no Legislativo. E as derrotas se acumulam. No final de janeiro, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que restringia a publicidade de produtos alimentícios para crianças. Pelo texto, aprovado pela Assembleia Legislativa em dezembro, se tornaria proibido veicular anúncios de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e com alto teor de açúcar, gorduras saturadas ou sódio, entre as 6h e as 21h, no rádio e na TV. Também seria vetado o uso de celebridades ou personagens infantis na venda de alimentos, assim como o uso de brindes promocionais, como os vendidos com sanduíches em redes de fast food (leia aqui). Em 22 de fevereiro, outra derrota. Desembargadores do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª. Região confirmaram a suspensão da Resolução 24 (RDC 24), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na resolução, a Anvisa (leia aqui) obrigava os fabricantes a colocar nos produtos o alerta de que o consumo em excesso poderia causar problemas de saúde como diabetes, hipertensão e obesidade. Desde que a resolução foi aprovada, em 2010, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA) luta para derrubá-la – e tem conseguido, alegando que a propaganda é “uma forma de liberdade de expressão”, que só pode ser alterada por lei do Congresso Nacional. No Congresso, o projeto de lei que trata da regulação da publicidade dirigida a crianças se arrasta há 11 anos (leia aqui). Em 2013, como tem alertado o Instituto Alana (veja aqui), um dos mais combativos nesta luta, ao completar 12 anos terminará a infância do projeto – uma infância passada engatinhando de comissão em comissão. E mais uma geração de brasileiros terá deixado de ser protegida.

As sucessivas derrotas e procrastinações dão uma ideia do tamanho do lobby da indústria de junk food, assim como do marketing e da publicidade. Mas não acho que somos apenas vítimas do poder das grandes corporações. Esta posição, a de vítima – e agora falo de adultos, não de crianças – tem uma boa quantidade de verdade, mas não é toda a verdade. Se isso tudo dá tão certo é também porque até mesmo o lugar de vítima pode ser confortável, afinal ele nos coloca na posição de quem sofre a ação, mas não pode fazer nada para impedi-la. Mas neste caso podemos, sim, como mostra muita gente que tem lutado no espaço público para isso – e muitos que têm mudado sua relação com o consumo, com a publicidade e com a comida, botando limites dentro de casa e indo para as escolas debater. Em um texto sobre o documentário (leia aqui), chamado “Muito além do peso (na consciência)”, Viviane Zandonadi, jornalista especializada em gastronomia, diz: “Afinal, se somos o que comemos e não sabemos o que comemos, o que é que somos”?

O que nos falta, talvez, seja nos reapropriarmos do nosso próprio poder – inclusive o do voto. E compreender que escolher é um ato humano profundo, que determina não só o que pegamos na prateleira, mas quem somos na vida. Vale a pena perceber que, se tivéssemos qualquer limite para o nosso prazer imediato, a junk food jamais se tornaria o problema que é. Se tanto valorizamos o indivíduo e a individualidade, é preciso não empurrar para o outro quando nossas más escolhas se revelam um desastre. As responsabilidades são múltiplas e com diferentes proporções – e a indústria tem que responder pelo que fez e faz, especialmente no que se refere à manipulação ou à omissão da informação. Mas, neste embate, também desempenhamos um papel ativo – e ele é mais profundo do que engolir mais ou menos porcaria. Se a junk food pode ser considerada uma droga de comida, o que nos leva até ela é muito mais complexo – e por isso, mais difícil de mudar.

Em sua análise, Michael Moss afirma: “Se os americanos beliscassem (junk food) apenas ocasionalmente e em poucas quantidades, não teríamos hoje o enorme problemas que temos. Mas por causa do tanto de dinheiro e de esforços investidos por décadas aperfeiçoando esses produtos, e então os vendendo incansavelmente, os efeitos já são praticamente impossíveis de reverter”. Concordo que lá ou aqui a mudança é difícil, bem difícil até, mas ainda assim temos escolha. Se é importante desnudar a racionalidade perversa da indústria de junk food e seus métodos inescrupulosos, também é importante desvelar nossos próprios mecanismos, do contrário nos livramos de uma armadilha para cair em outra. No fundo dessa história sórdida, desse emaranhado de lobbies e de bilhões de dólares, o que também é um participante ativo desse jogo é a nossa relação com a vida. É de uma relação de consumo e do imperativo do gozo – tão imediato quanto fugaz – que se trata.

Para mim, a melhor cena de “Muito Além do Peso”, a mais reveladora e profunda, é a de uma menina de olhos muito tristes contando que sua família sempre reza para agradecer pela comida, pedindo que não falte nada em sua mesa. Perguntam a ela, então: “Falta alguma coisa na sua vida”? E a menina de olhos muito tristes responde, alcançando muito além do peso, dos métodos e das estatísticas:

– Falta sentido.

Texto de Eliane Brum*, originalmente publicado na Revista Época.

* Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda (Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo).

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Documentário sobre a produção de alimentos orgânicos foi exibido pela primeira vez ao público, em Brasília, dia 21/03

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Dirigido por Kátia Kloch e Lícia Brancher, e produzido pela ContrapontoBrasil Orgânico é o primeiro documentário brasileiro que retrata o cultivo de alimentos orgânicos, mostrando a realidade dos agricultores e cooperativas engajados nessa nobre iniciativa. A Capital Federal foi escolhida para a exibição de estréia, evento que ocorreu na quinta-feira (21), no Centro de Eventos e Convenções Brasil 21. O filme relata histórias reais de diversas famílias e comunidades envolvidas na produção de orgânicos, e apresenta a riqueza de paisagens, culturas e ecossistemas do Pantanal, Amazônia, Pampa, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

Apesar do crescimento de mais de 20% ao ano, apenas 0,8% da agricultura nacional é orgânica. Esse documentário é um incentivo para aumentar esses números, uma vez que esse tipo de cultivo segue princípios, como: a manutenção da biodiversidade,  a sustentabilidade da vida no campo, a preservação ambiental e a valorização do trabalho. Além disso, os alimentos certificados com o selo orgânico são produzidos sem aditivos químicos e conservantes artificiais, garantindo maior valor biológico. Também é importante destacar o fato de preservação da vida e da saúde de quem produz e consome.

Em breve, o documentário será lançado em DVD e distribuído em parceria com empresas e instituições relacionadas ao mercado orgânico. Brasil Orgânico também estará disponível em videolocadoras e lojas especializadas. O projeto é realizado através da Lei do Audiovisual (Ancine/Ministério da Cultura), com patrocínio da Tractebel Energia e do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul).

Confira o teaser:

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