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Patrocinío de empresas em eventos científicos

Por Ada Bento, Camila Araújo e Camila Leão

Recentemente, recebemos mensagem de uma seguidora do Facebook sobre um evento que irá acontecer em setembro no estado de São Paulo. Se trata de um “Simpósio de Obesidade na Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da FMUSP”. A programação é bem interessante, como vocês podem conferir:

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Entretanto, observem o patrocínio/apoio do evento: Danoninho e Nestlé; empresas que têm entre sua gama de produtos, alimentos industrializados com alto teor de gordura, açúcares e energia, além de baixo teor de nutrientes, e que possivelmente podem estar associados com o aumento da prevalência do excesso de peso nesse público alvo do evento. Diante dessa situação, fomos questionadas sobre o possível conflito de interesse que esse tipo de patrocínio pode causar.

Na verdade diversos eventos que tratam sobre alimentação, nutrição e as comorbidades associadas a essas questões são patrocinados por grandes empresas nos fazendo questionar sobre a fidedignidade do que será abordado no evento.

Será que alguma informação pode ser transmitida de forma tendenciosa? De forma a incentivar o consumo de determinados produtos/alimentos, com alegações de saúde? Muito provavelmente sim. Ou até mesmo, apenas a simples presença dessas marcas, com o apoio ao evento, distribuição de amostras grátis, material científico, entre outros, pode transmitir ao profissional de saúde que essa é uma marca confiável, impassível de questionamentos. Muitos profissionais “”se encantam” com todo esse apoio e esquecem de ir conferir nas pratelerias, rótulos e bulas, por exemplo, se as informações das alegações conferem com as informações do produto em si. Pensando em produtos alimentícios: um iogurte pode ter a alegação de que tem pobióticos, “Lactobacillus vivos”, rico em fruta, porém se entre seus ingredientes não constarem significativos teores dos mesmos, tudo não passa de propaganda enganosa.

Então, será que esse patrocínio tem algum conflito de interesse? A resposta é sim! Por definição, conflito de interesse é um conjunto de condições que interferem em um julgamento, de forma que um interesse primário, como o bem estar do paciente, seja comprometido em detrimento de um secundário, como a divulgação de produtos que são comercializados por essas empresas. O fato de empresas como, Danone, Coca-Cola, Nestlé, patrocinarem esses eventos pode influenciar a forma como os profissionais irão interagir com seus pacientes, comprometendo sua integridade como profissional de saúde que busca promover saúde e difundir informações seguras e verdadeiras.

 

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A FARSA DO FIM DOS QUADRINHOS NACIONAIS ou porquê não somos todos alienados a serviço de interesses mercantilistas

Texto retirado do site: Actions e Comics
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O Tio Ultimate aqui participou ativamente das discussões no DPDC do ministério da Justiça sobre a nefasta publicidade infantil no nosso País ( como também a nefasta publicidade de medicamentos )  e fiquei surpreso com a tentativa de ludibriar a população com falsas teorias da conspiração que só têm o objetivo de beneficiar uma minoria de exploradores e riquíssimos empresários. Ao iniciar a construção de um artigo me deparei com o excelente artigo escrito por noQuadrinheiros e resolvi o reproduzir aqui com os devidos créditos:

Nessa semana uma notícia estapafúrdia e idiota está se propagando entre os fãs de quadrinhos. A origem está na Resolução n.163 de 13 março de 2014 do Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA), que dispõe sobre a abusividade do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança e ao adolescente a qual o tio Ultimate aqui considera um rande avanço na proteção de nossas crianças. Rapidamente espalharam-se notícias afirmando que a resolução determinaria o fim dos quadrinhos nacionais, o fim dos quadrinhos, o fim dos desenhos infantis na televisão e demais previsões apocalípticas, o que é uma mentira deslavada e absurda!
Infelizmente nos tempos de googlelização as pessoas leem as três primeiras linhas de qualquer coisa e param por aí, já com a opinião a respeito formada. E se você chegou até aqui sua pergunta foi a mesma que a minha quando li tais opiniões: elas têm algum tipo de fundamento?
Bom, uma notícia que sintetiza essa visão apocalíptica com algum fundamento e também com algum exagero pode ser vista aqui. O raciocínio é o seguinte: todo e qualquer produto (seja um quadrinho, um desenho etc.) necessita de propaganda para poder vender no mercado, logo, se não há propaganda, não há como o produto se manter no mercado. A resolução, segundo o texto citado, é muito ampla e portanto tudo poderia ser considerado como propaganda abusiva, até mesmo capas de gibis etc. Logo, sem propaganda permitida, os quadrinhos nacionais e desenhos estariam fadados ao fim, uma vez que não poderiam mais ser divulgados. A mesma sentença valeria para os desenhos animados, dada a falta de anunciantes infantis, e não seriam mais rentáveis para os canais de televisão. O cenário da matéria ainda é mais sombrio: seria também o fim de bonecos colecionáveis etc.
Isso é correto? Vejamos.
A resolução, que você pode ler por si mesmo aqui, define comunicação mercadológica “toda e qualquer atividade de comunicação comercial, inclusive publicidade, para a divulgação de produtos, serviços, marcas e empresas, independentemente do suporte, da mídia, ou do meio utilizado”. Essa definição de comunicação mercadológica é bem ampla e deu margem às previsões apocalípticas da matéria citada. Porém, o que não é citado é que a resolução dispõe sobre aabusividade da comunicação mercadológica, e também define o que é consideradoabusivo:
 
“Considera-se abusiva, em razão da política nacional de atendimento da criança e do adolescente, a prática do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço e utilizando-se, dentre outros, dos seguintes aspectos:
 
I – linguagem infantil, efeitos especiais e excesso de cores;
II – trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de criança;
III – representação de criança;
IV – pessoas ou celebridades com apelo ao público infantil;
V – personagens ou apresentadores infantis;
VI – desenho animado ou de animação;
VII – bonecos ou similares;
VIII – promoção com distribuição de prêmios ou de brindes colecionáveis ou com apelos ao público infantil; e
IX – promoção com competições ou jogos com apelo ao público infantil”.
 
A resolução é um tanto ampla também, especialmente porque utiliza o termo “dentre outros”. Porém, ao definir minimamente o que pode ser considerado abusivo, já está a própria brecha para que toda e qualquer propaganda NÃO SEJA CONSIDERADA ABUSIVA.
Além do mais é a publicidade voltada para a criança e ao adolescente é que vai ser de alguma forma regulamentada e não toda e qualquer  publicidade de produtos voltados para a criança e adolescente. Qual a diferença? Simples. Uma propaganda, digamos sobre um tênis do Superman será voltada ao adulto, ou seja, aos responsáveis pela criança (que em última instância é quem decide sobre o que ela irá consumir) e não à criança. Portanto, caso a resolução seja colocada em prática, é mais correto dizer que tais propagandas não vão simplesmente acabar, mas serão redirecionadas aos responsáveis por crianças e adolescentes.
Maurício de Sousa, que dispensa maiores apresentações, criticou abertamente a resolução e é óbvio que as empresas que lidam com produtos e publicidade para crianças e adolescentes estão temerosas. Mônica de Sousa tentou vincular a resolução a essa visão apocalíptica, mostrando não só desconhecimento sobre a resolução como obviamente defendendo os interesses da empresa de seu pai, que você pode ler na íntegra aqui.
Até entendo que nosso passado marcado por duas ditaduras nos deixe inquietos em relação à qualquer coisa que pareça censura, mas tem algum fundamento dizer que o mercado de quadrinhos nacionais, de desenhos, de produtos infanto-juvenis vai mesmo acabar? É óbvio que não. O máximo que irá acontecer é a mudança de viés dessas propagandas e, portanto, a viabilidade mercadológica de produtos voltados para crianças e adolescentes está assegurada. Sem razão para prever o fim dos quadrinhos nacionais e demais bobagens.

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Portas Abertas do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA): Discriminação contra os estudantes obesos e os muito magros nas escolas brasileiras

Por Ada Bento e Camila Leão

Nesta terça feira, 11/3 o PropagaNUT participou de um evento organizado pelo OBHA, sobre Discriminação contra os estudantes obesos e os muito magros nas escolas brasileiras. A pesquisa foi desenvolvida pelo economista Luis Claudio Kubota, vinculado ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

A base de dados utilizada foi a da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde (MS).A amostra foi composta por alunos do nono ano, com uma faixa etária média entre 14 e 15 anos.

A principal variável utilizada foi a classificação como “muito magros”, “magros”, “normais”, “gordos” e “muito gordos”, sendo que essa foi uma variável autoclassificatória.

O gráfico abaixo apresenta os percentuais de ocorrência de comportamentos de risco, bullying, agressões e ferimentos, atividade física e relacionamento com os pais, entre todos os alunos de escolas píblicas que compuseram a amostra.

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Clique na imagem para ampliar.

Obs: Na versão completa do trabalho, está disponível a análise separada por sexo e por tipos de escolas (pública ou privada). Vale ressaltar, que não houve diferença significativa entre os dois tipos de escolas.

O gráfico mostra claramente, que tanto para os alunos obesos, quanto para os muito magros, há alguma diferença com relação aos indicadores analisados. Isso indica que esses alunos estão sofrendo discriminação dentro do ambiente escolar e algumas vezes até mesmo dentro de casa. Foi muito destacado tanto pelo pesquisador, quanto pelos ouvintes da palestra, que é importante que as políticas públicas foquem na obesidade e nas suas causas, e não no obeso. Quando uma ação sobre esse tema não é bem estruturada, a mesma pode ter efeito contrário, e estimular ainda mais o preconceito, como é o exemplo da imagem a seguir:

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Na pesquisa também foi avaliada a diferença entre consumo de alimentos saudáveis e não saudáveis, de forma que os alunos deveiram marcar quantos dias na da semana consumiam cada tipo de alimento. A tabela abaixo mostra os resultados encontrados.

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Clique na imagem para ampliar.

Durante a discussão foi ressaltado principalmente o fato de que os alunos que se consideraram “muito gordos” disseram consumir mais alimentos saudáveis e menos não saudáveis do que os “normais”.

As possíveis justificativas para esses resultados podem ser o fato de os “muito gordos” serem mais conscientes sobre o valor da alimentação, de adolescentes consumirem mais alimentos devido ao maior gasto energético durante essa fase da vida, ou ainda estarem mentindo; em busca de aprovação. Vale ressaltar ainda que esses dados são em termos de número de dias e não de quantidade consumida, ou seja, o adolescente pode referir consumir o alimento só um dia durante a semana,  porém consumi-lo em grande quantidade nesse único dia – ou vice versa.

Resultados como este mostram que ainda há muita discriminação com relação ao estado nutricional e que muitas vezes nem os pais e nem a escola sabem como lidar com isso, enfatizando a necessidade da criação de políticas públicas bem elaboradas sobre esse tema. A pesquisa na íntegra está disponível no link destacado acima.

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Exibição do documentário Muito Além do Peso foi um sucesso!

Por Camila Araújo e Mariane Bandeira.

A exibição do documentário Muito Além do Peso, promovida pelo PropagaNUT na noite da última segunda-feira (8/7) na Livraria Cultura, foi um sucesso!

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Mesa Redonda – Renata Monteiro, Raquel Fuzaro, Eduardo Damasceno e Elisabetta Recine.

Renata Monteiro: professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília e coordenadora do PropagaNUT – moderadora da discussão.
Raquel Fuzaro: advogada, ativista social e mãe, membro do Movimento infância Livre de Consumismo.
Eduardo Damasceno: publicitário, sócio e diretor de criação da agência de comunicação Albergue Criativo e sócio e designer da empresa de objetos criativos dZáin.
Elisabetta Recine: professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília, conselheira do Consea e também uma das entrevistadas no documentário.

O evento contou com convidados especiais de diversas áreas, o que enriqueceu o debate, já que trouxe argumentos do ponto de vista acadêmico e da sociedade civil. Foi falado sobre políticas públicas e ações de Educação Alimentar e Nutricional nas escolas e de como elas têm um papel importante na formação e ensino de hábitos alimentares – mas como isso ainda é pouco explorado nas disciplinas e atividades escolares. Além disso, foi discutido também sobre as experiências de cada um em diferentes papéis – como mãe ou como indivíduo influenciado pela mídia, por exemplo -, sobre como os alimentos industrializados estão “arraigados” no nosso dia a dia e de como existe uma dependência do seu consumo na sociedade atual.

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Renata Monteiro – coordenadora do PropagaNUT.

A discussão contou ainda com a participação da plateia debatendo o seu ponto de vista sobre o tema, os impactos que o filme gerou, bem como a sua experiência com os filhos em relação ao contexto atual e a alimentação.

A equipe do PropagaNUT agradece a presença de todos que participaram dessa noite conosco. Esperamos ter contribuído um pouco mais para despertar a reflexão e conscientização a respeito dos problemas relacionados a má alimentação, com o consumo excessivo de alimentos industrializados, a influência da publicidade na formação dos hábitos alimentares e como tudo isso culmina no crescimento  da epidemia atual de obesidade.

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Equipe do PropagaNUT e convidados: Camila Leão, Renata Monteiro, Raquel Fuzaro, Eduardo Damasceno, Elisabetta Recine, Camila Araújo e Mariane Bandeira.

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Refrigerante cancerígeno? O que o Direito tem a dizer sobre isso?

Por Mariana Ferraz.

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“A Coca-Cola e a Pepsi decidiram mudar a fórmula, nos EUA, do corante caramelo que compõe os refrigerantes para não ter de colocar um alerta de risco de câncer em suas latas” (Folha.com, 9 de março de 2012).

Repercutiu na imprensa internacional e na nacional. Grandes empresas anunciam mudanças na composição de seus produtos em função dos riscos oferecidos à saúde do consumidor. Faltou, no entanto, o destaque: a mudança ocorrerá apenas nos produtos comercializados nos Estados Unidos. E no Brasil, e no resto do mundo? Como fica o dever de precaução dessas empresas fora dos EUA.

O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) realizou um levantamento de alguns produtos da linha de refrigerantes e energéticos que possuem em sua composição o corante Caramelo IV (INS150d) e constatou que esse aditivo encontra-se muito mais presente no cotidiano do consumidor brasileiro do que ele imagina. Está também nos nacionalíssimos refrigerantes de Guaraná (Guaraná Antártica, Kuat, Dolly e outros) e na maioria dos energéticos (compostos líquido pronto para consumo à base de taurina e/ou cafeína). Não só em bebidas, o corante caramelo IV pode ser encontrado também em cereais matinais e granolas.

Ocorre que no Brasil o uso desse aditivo é permitido. Entretanto, no processo de elaboração do Caramelo IV, a utilização de amoníaco e sulfitos acaba gerando dois subprodutos: 2-metilimidazol e 4-metilimidazol, e conforme o estudo norte americano produzido pelo Programa Nacional de Toxicologia do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos divulgado em 2007, existe clara evidência de que estes subprodutos são cancerígenos em animais. Os compostos cancerígenos em animais são comumente proibidos para o consumo humano.

Conforme esclarecido por um grupo de diferentes órgãos de defesa do consumidor da América Latina, esse corante é um ingrediente que desempenha uma função puramente estética e pode ser substituído por outros corantes que não representem um risco à saúde, como o Caramelo I, já utilizado pela Pepsi no Brasil.

A manifestação de diversas entidades da sociedade civil e de especialistas em estudos de toxicologia fez com que a lei na Califórnia (EUA) passasse a exigir que as empresas dispusessem avisos de alerta em produtos que contêm esse aditivo. No Brasil, o Idec cobrou da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) um posicionamento concreto sobre o assunto. O Instituto questionou à agência reguladora a respeito do embasamento científico no qual a regulamentação brasileira se apoia para permitir o uso desse aditivo, ou seja, quais seriam os estudos que garantem a segurança do referido corante. Questionou-se também se há um monitoramento das quantidades de Caramelo IV, 2-metilimidazol e 4-metilimidazol presentes nos produtos comercializados no Brasil e se há limites máximos desses componentes previstos em regulamentação. Por fim, perguntou qual providência será adotada pelo órgão.

As empresas também foram questionadas pelo Instituto. Indagou se as mesmas farão voluntariamente a mudança na composição dos seus produtos no Brasil ou se agirão somente mediante disposição normativa.

O posicionamento do Direito é claro sobre o tema. O CDC (Código de Defesa do Consumidor), tendo em vista o princípio da prevenção, garante a proteção à vida, à saúde e à segurança (art. 6º, I), prevendo que os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos aos consumidores (art. 8º). É previsto ainda que o fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou segurança deverá informar de maneira ostensiva e adequada a respeito da nocividade ou periculosidade (art. 9º).

Há que se ter em conta também o princípio da precaução, ou seja, quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes para prevenir o possível dano. Sendo assim, no caso aqui tratado, tanto empresas como o Estado são responsáveis em adotar as medidas necessárias.

Fonte: Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – Idec.

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Agora a Coca-Cola quer combater a obesidade…

Por Mariane Bandeira.

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Chega a ser meio paradoxal, para não dizer irônico, que uma das maiores responsáveis por causar obesidade na população agora se diz querer ser “parte da solução”, segundo declarações do presidente da empresa, Muhtar Kent. Mas é isso mesmo…

A Coca-Cola anunciou que vai adotar medidas em mais de 200 países a fim de ajudar na luta contra a obesidade. E não para por aí, a multinacional também declarou que não irá mais produzir publicidade dirigida a menores de 12 anos. E tudo isso muito bem inserido em um belo discurso e com direito a campanhas publicitárias (Coming Together e Together for Good) que até nos fazem chorar. Tudo muito lindo.

Diante desse fato, não posso deixar de citar um famoso provérbio popular: quem não te conhece, que te compre! Vivemos num sistema capitalista, e uma companhia multimilionária com certeza não dará um ponto sem nó. A pergunta é: o que está por trás disso? E podemos ir mais longe e perguntar: como uma produtora de bebidas com altos teores de açúcar pode incentivar campanhas por uma vida mais saudável?

A triste realidade é que a obesidade e as doenças decorrentes dos maus hábitos são as principais causas de morte no mundo e já são consideradas epidemias globais. Em uma de suas campanhas, a Coca-cola afirma que “se você ingerir mais calorias do que gasta, você irá engordar, e não importa de onde essas calorias procedem”. Afinal, “calorias são calorias”. E a partir disso, a empresa quer criar alertas mundiais sobre a importância de estilos de vida ativos e saudáveis. “Todos sabemos que ingerir calorias é mais divertido do que gastá-las, mas queremos que queimar calorias também tenha um pouco de diversão”, explica o presidente da multinacional. É claro que se você ingerir mais calorias do que gasta, irá engordar, mas não é correto achar que “calorias são calorias, não importam de onde procedem”, isso é um grande equívoco!

Quando generalizamos as fontes de calorias, desconsideramos todas as particularidades dos nutrientes e do metabolismo. A verdade é que há sim diferenças entre as calorias provenientes de, por exemplo, açúcar refinado, das calorias provenientes de uma fruta, como a maçã. A quantidade energética fornecida pelo açúcar refinado, cuja lata de coca-cola contém, em média, 10 colheres de chá de açúcar por unidade, é absorvido pelo organismo de uma forma completamente diferente da quantidade energética contida na maçã.

Primeiro, porque o açúcar refinado é absorvido mais rápido devido a sua composição. E por elevar rapidamente a glicemia (quantidade de açúcar no sangue), pode sobrecarregar o pâncreas, órgão responsável pela liberação de insulina, principal hormônio envolvido no  metabolismo da glicose. E para piorar, não contém nenhum nutriente, como vitaminas, mineirais ou fibras, sendo considerado como fonte de calorias “vazias”.

Em contrapartida, as calorias contidas em uma maçã, são absorvidas pelo organismo de uma forma mais lenta, devido a quantidade de fibras presentes. As fibras fazem com que a insulina não seja liberada de uma  vez. Além disso, a maçã apresenta em sua composição vitaminas e minerais que atuam beneficamente em diversos processos no organismo, principalmente no metabolismo. E isso desmistifica a afirmação que “calorias são calorias, não importam de onde venham”.

O que aconteceria se um indivíduo se alimentasse exclusivamente de um único alimento, e esse alimento fosse o açúcar refinado? 

Isso teria o seguinte impacto em seu organismo: primeiro, iria elevar drasticamente a glicemia e, consequentemente, o pâncreas precisaria secretar uma quantidade alta de insulina para retirar o excesso de açúcar na circulação. Ao longo do tempo, esse mecanismo causa resistência insulínica, podendo desencadear  o desenvolvimento de obesidade, diabetes, hipertensão e outras doenças crônicas não transmissíveis.

Uma vida saudável não depende apenas da quantidade de calorias consumidas. Mas da quantidade de nutrientes adquiridos por meio de uma dieta variada, a fim de garantir um alto valor nutricional. Consumir mais frutas, hortaliças e alimentos integrais – que promovem um impacto bem menor na glicemia e na liberação de insulina – é essencial para a manutenção da saúde e para prevenção dessas doenças. 

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Diante da realidade que estamos enfrentando em relação a epidemia global de obesidade infantil, a regulamentação da publicidade dirigida às crianças é um assunto de extrema urgência. Proibir o marketing de alimentos ricos em açúcar, sódio e gordura é apenas uma das ações de combate e prevenção. Ao lado disso, é preciso incentivar a prática de exercícios físicos, todavia, sem que haja uma mudança efetiva de hábitos alimentares, não poderemos pensar em algo duradouro e que realmente surtirá efeitos benéficos. É preciso promover campanhas que incentivem a alimentação saudável: MAIOR consumo de frutas, hortaliças e alimentos integrais, e MENOR consumo de alimentos ricos em açúcar, sódio e gordura, como a coca-cola.

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Mesa redonda sobre Regulação da publicidade de alimentos – saiba um pouco do que foi discutido

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Aconteceu ontem (26/03) na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) a mesa redonda com o tema “Regulação da publicidade de alimentos: convergindo agendas de pesquisa, política e ação”. O debate foi coordenado por Fábio Gomes, nutricionista do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e secretário de Relações Exteriores da Associação Mundial de Nutrição e Saúde Pública, e contou com a participação de Jason Halford e Emma Boyland, pesquisadores do Departamento de Ciências Psicológicas do Instituto de Psicologia, Saúde e Sociedade da Universidade de Liverpool no Reino Unido.

Jason e Emma se dedicam a investigar os efeitos da publicidade de alimentos sobre o comportamento de compra e consumo de alimentos não saudáveis. Seus estudos têm motivado a formulação de políticas de regulação da publicidade de alimentos para interferir positivamente na melhoria da alimentação de populações.

Durante o evento, os palestrantes britânicos trouxeram estudos que comprovam a influência das diversas mídias no aumento dos índices de obesidade, principalmente no público infantil, uma vez que são mais vulneráveis aos apelos da publicidade.

O objetivo da publicidade é vender uma marca e um estilo de vida, de forma que o indivíduo se torne fiel ao produto. A cada 1 dólar gasto pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em programas para promover a alimentação saudável, são gastos 500 dólares pela indústria na publicidade de alimentos não saudáveis. Para se ter uma ideia, a Nestlé gastou 43 milhões de libras em propagandas na TV britânica, no ano de 2003. É uma luta muito difícil e injusta, o que deixa claro a necessidade de leis a fim de regulamentar esse tipo de marketing.

Um dado interessante exposto é o fato de que assistir televisão exerce efeito preditivo no ganho de peso, ou seja, quanto mais tempo a criança passa assistindo TV, mais ela engorda. Para cada hora gasta em frente à televisão, há um acréscimo de 2% na probabilidade de desenvolvimento de obesidade. E isso é alarmante, pois as crianças passam muito tempo em frente à TV. Pesquisas mostraram que além de favorecer o surgimento de transtornos alimentares, a TV também incentiva o consumo de junk foods, que fazem parte de 95% dos alimentos anunciados. E, segundo dados apresentados na discussão, crianças obesas aumentaram sua ingestão em mais de 150% quando expostas a esses anúncios.

Outro ponto discutido foi o fato de que muitas redes de fast food anunciam na publicidade as opções mais “saudáveis” do cardápio e utilizam esse fato para se autopromoverem como “amigas da saúde”. Todavia, não são esses os alimentos mais consumidos, e sim as opções não saudáveis, como relatam as pesquisas.

Debates como este precisam ser incentivados e divulgados pelo governo, pelas universidades e pela sociedade civil, uma vez que a obesidade é considerada um epidemia global, responsável pela maioria das mortes atualmente. Parabenizamos a UERJ pela realização desse evento, com a expectativa de que outros aconteçam.

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