Publicidade de Alimentos e obesidade infantil: uma ligação nem sempre visível

Por Esther Radaelli e Maíra Mendonça.

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O excesso de publicidade de alimentos voltada para o público infantil é um dos fatores que contribuem para o aumento da obesidade infantil. Especialistas acreditam que uma das saídas para este problema é a regulamentação deste setor.

Como explicar para as crianças e até mesmo para os próprios pais que um determinado alimento pode ser prejudicial à saúde, mesmo com toda a produção publicitária dizendo o contrário? Esse foi um dos principais questionamentos levantados ao longo do V Seminário de Saúde Alimentar e Nutricional de Vitória, cujo tema foi “Publicidade de alimentos e o seu impacto social”. O evento, realizado no dia 09 de agosto na Prefeitura Municipal de Vitória, reuniu pesquisadores e estudantes das áreas de Nutrição, Comunicação e Direito para discutir a influência das estratégias publicitárias sobre o consumo das crianças e os consequentes prejuízos causados à saúde, entre eles, a obesidade.

A publicidade estimula o consumo. Até aí, nada de novo. O problema é quando tal estímulo está associado a ideias enganosas ou fantasiosas e tem como foco um público certo: o público infantil. De acordo com informações do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, somando canais de televisão abertos e fechados, 44% do total de propagandas alimentícias destina-se a crianças. Salgadinhos, sucos de caixinha e todos os tipos de guloseimas tornaram-se rotina na dieta alimentar dos pequenos, sempre estimulados por belas propagandas. O consumo de alimentos, especialmente nesta faixa etária, é, além de tudo, uma forma de as crianças se integrarem nos grupos. Quando ela passa a interagir com as demais, que consomem determinados produtos, também irá querer adotar o mesmo hábito.

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN – 2000), estima-se que no Brasil cerca de 20% das crianças apresentam algum grau de excesso de peso. “Como as crianças estão expostas por muito tempo aos estímulos da publicidade, sua influência sobre a alimentação é direta. Ainda mais porque as indústrias usam de mecanismos que tocam diretamente o consciente e o inconsciente delas. O uso de personagens do universo infantil, os efeitos visuais e sonoros e o falso discurso de consumo saudável são perversos. A indústria sabe muito bem disso, tanto que investe cada vez mais em estudos e práticas de como influenciar as crianças para o consumismo”, critica o professor de Comunicação Social da Ufes e Coordenador do Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas e sistemas, Edgard Rebouças. Desde 2011, o Observatório, em parceria com o Instituto Alana, desenvolve a pesquisa “Monitoramento da publicidade de produtos e serviços destinada a crianças”. Trata-se de um estudo longitudinal no qual os pesquisadores monitoram a publicidade de produtos e serviços destinados às crianças em programações de 15 canais, durante as semanas que antecedem datas comemorativas como Páscoa, Dia das Crianças e Natal.

A gerente de segurança alimentar e nutricional de Vitória, Laydiane Silote Barbosa, é também uma das organizadoras do evento. Ela explica que uma das principais consequências do consumo diário de alimentos hipercalóricos pelas crianças é a obesidade infantil, que traz consigo outras complicações, tais como o colesterol alto e o diabetes, podendo aumentar, inclusive, o risco de problemas cardiovasculares. “O que vemos atualmente é uma moldura de criança num corpo de idoso”, esclarece Laydiane. A nutricionista acredita que a importância de seminários como este reside na possibilidade de reunir diferentes áreas na discussão sobre este tema, somando forças para combatê-lo.

Já o professor Edgard acrescenta que um grave problema que vem ocorrendo é que empresas do setor de alimentos e a mídia têm feito campanhas alegando que o simples fato de discutir esse assunto é uma tentativa de censurar suas atividades. “Censura é impedir que haja debate. E as pressões sobre os órgãos públicos são muito grandes, por isso, toda iniciativa como esta merece aplausos. O fato de a Prefeitura de Vitória resgatar esse tema pode incentivar a que outras prefeituras se interessem também por isso”, analisa ele. Outro questionamento levantado por Edgard durante o seminário é a tentativa da publicidade de ocupar o lugar de autoridade em alimentos e saúde, enquanto esse lugar é, de fato, dos nutricionistas. A questão é que muitos dos nutricionistas, quando vão trabalhar nessas indústrias, acabam adotando ou cedendo ao mesmo discurso.

Em sua tese de doutorado concluída em 2009, a professora de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), Renata Monteiro, buscou verificar como os aspectos psicossociais e situacionais influenciam no consumo e alimentação das crianças. Para tanto, o estudo teve como principal objeto as atitudes e os comportamentos das crianças diante de alimentos saudáveis e não saudáveis. Foram analisadas 290 peças publicitárias de alimentos que apresentaram mensagens destinadas ao publico infantil. Estas peças foram apresentadas na televisão 6.183 vezes, representando 77,2 % do total de exposições de peças publicitárias de alimentos no período de um ano. Destas exposições, Renata constatou que 3,3% eram referentes a produtos saudáveis, enquanto 96,7% eram referentes a alimentos não saudáveis.

Durante sua palestra no seminário, Renata evidenciou algumas das estratégias, muitas vezes enganosas, utilizadas pela publicidade para atrair cada vez mais a atenção do público infantil. Estratégias estas que vão muito além da confecção de embalagens atraentes ou da utilização de recursos lúdicos. As estratégias de marketing estão em todos os lugares, às vezes de maneira tão sutil que passam despercebidas aos olhos dos consumidores menos atentos. Esse é o caso, por exemplo, da disposição das mercadorias nas prateleiras do supermercado e da presença de stands, que deixam os produtos na altura dos olhos das crianças e também próximos aos caixas, estimulando o seu consumo.

Além disso, elas estão migrando para novos espaços, como é o caso da internet. Já é possível observar uma gama de produtos que contêm em sua embalagem o endereço de sites, em que as crianças encontram uma série de jogos e outras atividades. Segundo a professora Renata, mais uma forma de deixá-las por mais tempo em contato com as marcas dos alimentos. Para a professora, um fator também agravante é o surgimento e a difusão do chamado “marketing nutricional”, em que os fabricantes focam nas qualidades de seus produtos, enquanto omitem as informações negativas. Outra variação do marketing nutricional é a associação indireta dos produtos a uma alimentação saudável por meio de propagandas e ações que visam dar dicas de saúde. “É importante destacar que o problema da publicidade não é só o que está sendo anunciado, mas também a forma como ele é apresentado, a importância que é dada a ele e como ele é associado a um comer dos dias de hoje”, evidencia Renata.

Regulamentação

Mariana Ferraz, advogada, mestranda em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo (USP), é integrante do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor). Como ela mesma explica, o Idec é uma organização não governamental, mantida por associados, e tem uma natureza de reivindicação e proposição de políticas públicas. Um dos temas centrais para os órgãos que defendem o consumidor é a publicidade. A advogada explica que esta é uma preocupação internacional. O que acontece, é que a regulação da área pouco existe aqui em nosso país. “O Brasil está muito aquém do que a gente gostaria. E podemos até comparar com outros países, que possuem iniciativas que inspirariam o Brasil a ter uma regulação mais avançada nesse sentido. Só para citar um exemplo recente: o Peru, este ano, aprovou uma lei que regula a publicidade, proibindo anúncios direcionados para crianças e também a publicidade realizada dentro das escolas. Além de colocar vários critérios para a publicidade de alimento, de forma que o consumidor seja informado sobre a sua natureza. É o que tentamos aprovar no Brasil há muito tempo, mas enfrentamos uma resistência muito grande do setor da indústria e publicitário”, explica.

Segundo Mariana, no Peru também houve uma forte resistência, porém a lei conseguiu ser aprovada. Para ela, com vontade política as coisas podem acontecer. Mas ela já percebe uma mudança no cenário brasileiro que é fundamental neste processo: a apropriação do tema por parte da sociedade civil – por mais que dificilmente a mídia trate do assunto, por ser um tema que pode “ferir” os interesses dos anunciantes. Mariana garante que esta é a melhor maneira de pressionar o poder público para que alguma medida seja tomada, através da informação. A produção de documentários que abordem e debatam sobre o tema são essenciais neste processo, como o “Muito além do Peso”, exibido no evento.

A advogada informa que existem tentativas de regulamentação do setor. Uma delas é a RDC 24, proposta pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Essa resolução teve uma ampla consulta pública e, como explica Mariana, continha as seguintes proposições: regulação do horário das publicidades de alimentos de forma a proteger as criança e o alerta em publicidades televisivas, avisando sobre alimentos que possuem altos teores de substâncias como sódio e açúcar. Mas quando a Anvisa publicou a resolução, a primeira disposição mencionada havia sido retirada. Mesmo assim, ainda tinha sido um avanço. Porém, logo depois da publicação vieram inúmeras reclamações da indústria e de setores publicitários de que a Anvisa não tinha competência para lidar com este assunto. “O Brasil se encontra hoje no limbo, essa resolução está publicada, mas está suspensa. O governo está aguardando pra resolver esse imbróglio…”, lamenta Mariana.

Então, enquanto não existe um progresso substancial nessa área, o setor continua sendo autorregulado, não dando conta de atender as demandas necessárias. Para Mariana, o Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) consegue resolver as questões de concorrência entre marcas, mas afirma que não é possível designar um órgão que não é governamental para cuidar de interesses públicos. “Há um conflito de interesses patente aí”, ressalta.

Ainda sobre a regulamentação do setor, o professor Edgard afirma que o poder público precisa tomar a iniciativa de defender o interesse público, e não somente os privados. “O problema da obesidade já é classificado pela Organização Mundial da Saúde como uma pandemia, que tende a se agravar nos próximos anos. Se medidas de políticas públicas não forem adotadas urgentemente, os resultados para a saúde coletiva serão enormes a médio e longo prazo. Sou favorável que haja medidas em âmbito municipal, estadual e federal, não apenas sobre a publicidade, mas no estimulo à mudança dos hábitos alimentares”, conclui.

Fonte: Universo.UFES

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3 Comentários

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3 Respostas para “Publicidade de Alimentos e obesidade infantil: uma ligação nem sempre visível

  1. Amanda

    Post totalmente esclarecedor, argumentativo e importante! No começo da leitura estava me lamentando por não ter a oportunidade de assistir a esse Seminário sobre um assunto que tanto me interessa, mas vocês explicaram tão detalhadamente a forma como ocorreu, que me senti como se tivesse feito parte.
    Sempre que vou a eventos como jornadas e seminários aqui na minha cidade, deixo como sugestão aos organizadores, quando pedem, que façam palestras sobre a publicidade infantil. Quanto tenho alguma disciplina na faculdade que permita trabalhar com algum tema, também escolho esse. E sempre procuro compartilhar o meu conhecimento em torno disso com outras pessoas na tentativa de divulgação.
    Mais uma vez parabenizo vocês pelo excelente conteúdo!

  2. Amanda

    hahaha sim, depois que enviei o comentário que me toquei!! obrigada 🙂

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