Onde está a fruta?

Por Idec*.
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Não é preciso ir ao setor de hortifrúti do supermercado para ver frutas. Elas estão na seção de iogurtes, na de sucos de caixinha e refrescos, entre outras com produtos industrializados, estampando as embalagens. Mas quando se trata do conteúdo, não espere encontrá-las de fato nesses alimentos. Um levantamento realizado pelo Idec com 18 produtos, entre iogurtes, pós para refresco, néctares, gelatinas, sorvetes e isotônicos, mostra que oito deles não têm nem vestígio de frutas. Os demais apresentam quantidades bem pequenas – na melhor das hipóteses, não passa de 10% do conteúdo, mas há vários deles em que gira em torno de 1%. Apesar disso, em boa parte dos produtos as referências à fruta têm grande destaque: além de imagens reais ou estilizadas, as frases são em letra maior que a das demais informações do rótulo e ocupam grande parte da embalagem, enquanto a lista de ingredientes fica quase escondida. E o pior é que as empresas não informam claramente no rótulo que o alimento não contém fruta e, quando contém, qual o seu percentual em relação ao restante dos ingredientes. “As figuras e frases que fazem alusão à fruta são o grande chamariz do produto, mas não correspondem à sua real composição. E como o consumidor não é adequadamente informado disso, pode ser induzido a erro”, aponta Mariana Ferraz, advogada do Idec responsável pela pesquisa.

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Pesquisa publicada na Revista do Idec em dezembro de 2011.

MARKETING FRUTÍFERO

Basta uma breve observação do rótulo dos alimentos analisados para perceber que a alusão à fruta é o carro-chefe para promovê-los. Em alguns casos, a imagem ou frase que faz referência à presença de fruta ocupa quase toda a embalagem. No néctar da Maguary, por exemplo, a foto do maracujá ocupa 18 cm dos 19,8 cm da caixinha; e o iogurte Kissy, da Batavo, tem mais da metade (12 cm) dos 20 cm de altura da embalagem ocupados pela imagem de morangos suculentos. Além disso, a maioria dos produtos também destaca o nome da fruta com letras grandes e recursos como o outline (contorno das letras).

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O Gatorade é um dos oito produtos que não contém fruta em sua composição, como se nota ao olhar a lista de ingredientes. No entanto, não há na embalagem qualquer frase que alerte para isso. O mesmo ocorre no caso do isotônico Marathon, da gelatina Dr. Oetker e do sorvete Kibon. Os demais produtos que não contêm fruta (isotônico Taeq; gelatinas Frutop e Royal; e o sorvete Napolitano da Nestlé) trazem algum tipo de alerta, mas, em geral, a frase está disposta na parte lateral da embalagem, na vertical e em letras miúdas. “A alusão à fruta sempre tem muito mais destaque na embalagem que a advertência de que o alimento não contém esse ingrediente”, critica Mariana Ferraz.

Sabe-se que os outros dez produtos analisados contêm fruta porque a polpa está relacionada entre os ingredientes, mas apenas os refrescos em pó Camp, La Frutta e Tang informam qual o seu percentual: 1%, nos três. Ou seja, quase nada, embora a imagem estampada no rótulo faça parecer que se trata do mais puro suco. Os demais alimentos não indicam no rótulo quanto têm de fruta. Além de esconder essa informação dos consumidores, duas empresas também se recusaram a fornecer esse dado ao Idec: Batavo, fabricante do iogurte Kissy, e Danone, que produz o iogurte Danoninho (esta alegou que se trata de informação confidencial).

De acordo com Carlos Monteiro, líder do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), a quantidade de polpa nesses produtos é muito pequena para que eles possam oferecer algum dos benefícios intrínsecos às frutas. “A vantagem das frutas é que elas concentram grande quantidade de nutrientes, vitaminas e minerais, e fornecem pouca energia [calorias]. Já os alimentos que fazem alusão a elas não são nada nutritivos, além de terem muito açúcar”, compara.

LACUNA NORMATIVA

Não é à toa que apenas os refrescos em pó indicam o percentual de polpa em seu rótulo. É porque só eles são obrigados pela legislação a isso. A Portaria no 544/98 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) estabelece que essa categoria de alimento deve conter, no mínimo, 1% de fruta. Essa regra, no entanto, é exceção. As demais normas que tratam da rotulagem de alimentos, embora preconizem o direito à informação do consumidor quanto às características e à composição do alimento, não obrigam os fabricantes a informar expressamente se o produto que faz alusão a frutas contém esse ingrediente e nem a sua quantidade. “Por conta dessa lacuna normativa, as empresas acabam descumprindo o dever de informar”, constata a advogada do Idec.

No caso de bebidas à base de frutas, o Decreto no 6.871/09 estabelece concentrações mínimas de polpa, que estão diretamente relacionadas à classificação do produto. Assim, para ser denominada “suco”, a bebida deve conter 100% de fruta (com exceção dos sabores manga e mamão, cujo mínimo é 60% de fruta). Recebem o nome “néctar” as bebidas que concentram de 30% a 40% de fruta; e as que contêm de 20% a 30% são chamadas de “refresco”. A resolução, porém, não prevê que tais percentuais sejam informados no rótulo do produto. “Sabemos que o consumidor, em geral, não tem conhecimento das regras da legislação e não tem como diferenciar intuitivamente o conteúdo de fruta num néctar ou num refresco”, pondera Mariana.

As empresas se apoiam nessas falhas da regulação. Exemplo disso é que em resposta ao questionário enviado pelo Idec, muitos fabricantes argumentaram que pelo fato de na embalagem estar escrito que o produto é “sabor de” já indica que ele não contém a fruta cujo sabor é mencionado. Mas a verdade é que os termos técnicos não são assim tão óbvios, e pelo Código de Defesa do Consumidor, a informação deve ser clara e precisa, ou seja, não dar margem a dúvidas. Para Monteiro, a regulação é fraca e benevolente com as empresas. “Se 1% das pessoas forem induzidas a erro, isso já é suficiente para impedir que determinado recurso seja utilizado. Deveria ser mais claro para o consumidor que não há fruta ou que a quantidade é muito pequena”, opina o médico.

OUTROS APELOS SAUDÁVEIS

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Além da alusão a frutas, alguns alimentos pesquisados também se valem de outros apelos para sugerir que o produto é saudável. Na embalagem do sorvete Balance Napolitano Kibon, por exemplo, há uma inscrição que diz que o produto tem “47% menos gordura”. Mas menos gordura que o quê? O néctar Maguary dedica uma face inteira da caixinha a “dicas” que associam o consumo do produto a hábitos saudáveis. E todas as marcas de refresco em pó usam termos como “rico em vitaminas”. O refresco Tang Pró, por exemplo, usa expressões como “mix de vitaminas”, “para que as crianças cresçam saudáveis” e afirma que o produto “contribui para o desenvolvimento mental”.

Pela legislação, as empresas podem usar termos como “rico em vitaminas” ou “fonte de ferro” quando adicionam esses compostos ao produto. Mas isso não significa que eles sejam necessariamente saudáveis. “A vitamina adicionada não corresponde nem a um décimo do que a que tem nas frutas”, ressalta Carlos Monteiro. Além disso, ele afirma que estudos têm mostrado que o consumo de suplementos vitamínicos não apresenta os mesmos benefícios que o consumo de vitaminas in natura, pois nesses suplementos elas não estão associadas às outras propriedades das frutas. Mas o marketing das empresas quer fazer os consumidores acreditarem que sim.

* Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

Texto retirado da Revista do Idec, com modificações. Matéria completa aqui e aqui.

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